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	<title>PhiLiz Space</title>
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		<title>Inverno Eterno &#8211; Póstumo (2008)</title>
		<link>http://philiz.wordpress.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008/</link>
		<comments>http://philiz.wordpress.com/2010/10/14/inverno-eterno-postumo-2008/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 06:07:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>PhiLiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reviews]]></category>
		<category><![CDATA[Depressive Black Metal]]></category>
		<category><![CDATA[Inverno Eterno]]></category>
		<category><![CDATA[Póstumo]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Artista: Inverno Eterno Álbum: Póstumo Ano: 2008 Género: Depressive Black Metal País: Portugal Editora: Bubonic Productions Tracklist: 01 &#8211; Prólogo 02 &#8211; À Sombra Do Passado&#8230; 03 &#8211; &#8230;Eternamente 04 &#8211; Enquanto A Morte Demora&#8230; 05 &#8211; &#8230;O Sofrimento Constante 06 &#8211; A Noite Que Perdura&#8230; 07 &#8211; &#8230;Na Memória 08 &#8211; Depois Que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=373&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align:center;"><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img88.imageshack.us/img88/9036/74a6d7493f4afa444727a98.jpg" border="0" alt="" width="448" height="449" />&nbsp;</p>
<p><strong>Artista:</strong> Inverno Eterno<br />
<strong>Álbum:</strong> Póstumo<br />
<strong>Ano:</strong> 2008<br />
<strong>Género:</strong> Depressive Black Metal<br />
<strong>País:</strong> Portugal<br />
<strong>Editora:</strong> Bubonic Productions</p>
<p><strong>Tracklist:</strong><br />
01 &#8211; Prólogo<br />
02 &#8211; À Sombra Do Passado&#8230;<br />
03 &#8211; &#8230;Eternamente<br />
04 &#8211; Enquanto A Morte Demora&#8230;<br />
05 &#8211; &#8230;O Sofrimento Constante<br />
06 &#8211; A Noite Que Perdura&#8230;<br />
07 &#8211; &#8230;Na Memória<br />
08 &#8211; Depois Que Tu Morreste&#8230;<br />
09 &#8211; &#8230;O Cansaço De Viver</p>
</div>
<p style="text-align:justify;">Nota: os membros da banda expressaram o desejo de não serem fotografados em concertos ao vivo pelo que daí se depreende a vontade da banda se manter incógnita a nível visual. Da mesma forma também se pode compreender que semelhante desejo se alarga à identidade dos membros da banda. Para respeitar esta vontade, e ao contrário do que normalmente é feito, não serão divulgadas imagens, nem os nomes dos membros que constituem a banda.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Introdução</strong></div>
<div style="text-align:center;"><em>«Cada um para seu fim,<br />
Cada um para seu norte&#8230;<br />
&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</em>&nbsp;</p>
<p><em>— Ai que saudade da morte&#8230;»</em><br />
(<strong>Mário de Sá-Carneiro</strong>, <em>Vontade de Dormir</em> em <strong>Dispersão</strong>)</p>
</div>
<p style="text-align:justify;">Este  pequeno excerto da autoria de uma das personalidades que mais  influencia os espaços (especialmente os literários) criados por <strong>Inverno Eterno</strong> torna-se num excelente meio de resumir, aforisticamente, as pulsões mais íntimas e profundas de <strong>Póstumo</strong>. A invocação exige-se e torna-se bastante pertinente devido às inúmeras ligações (directas e indirectas) a <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> que inundam todo o álbum, sendo que constituem parte fundamental da compreensão de <strong>Póstumo</strong>,  nomeadamente naquilo que este tem de maior e grandioso. As ligações  literárias estendem-se ao primeiro Modernismo português para lá de <strong>Sá-Carneiro</strong>, nomeadamente à sua figura mais notória, <strong>Fernando Pessoa</strong>. A par de <strong>Sá-Carneiro</strong>, o heterónimo <strong>Álvaro de Campos</strong> é influência clara no primeiro trabalho de <strong>Inverno Eterno</strong>.</p>
<p>A ideia de revisitar musicalmente <strong>Sá-Carneiro</strong> não é comum mas também não é inédita. Por oposição, a obra de <strong>Pessoa</strong> já muitas vezes foi usada para semelhantes fins. O que acontece no álbum de estreia de <strong>Inverno Eterno</strong> é, no entanto, bastante diferente do que havia sido feito na área até este momento. Aliás, não será exagero dizer, que <strong>Póstumo</strong> possui uma abordagem que se distancia de todas as interpretações  musicais de momentos literários destes dois autores, criando algo que  pela radical diferença expressiva é novo e acima de tudo único.  Compreender o que <strong>Póstumo</strong> tem de mais grandioso remete para a novidade de &#8220;usar&#8221; o <strong>Black Metal</strong> como &#8220;veículo&#8221; transmissor de alguns dos universos criados no trabalho  de grandes autores da língua portuguesa (às duas ilustres figuras já  mencionadas há que juntar <strong>Vergílio Ferreira</strong>). Não pelo pioneirismo de o fazer, mas sobretudo porque <strong>Póstumo</strong> é uma impressionante demonstração da ligação possível e lógica entre a negatividade inerente do <strong>Black Metal</strong> e autores cuja obra explorou sítios e sensações nada distantes. O ponto  fundamental desta ligação tem o enunciado como base mas só se  materializa devido às características específicas das referências  literárias em questão, bem como da abordagem de <strong>Inverno Eterno</strong> ao género musical onde se move.</p>
<p>É na capacidade de tornar embrionária a ligação entre o mundo literário e o <strong>Black Metal</strong> que reside precisamente um dos grandes pontos de interesse em <strong>Póstumo</strong> e sobretudo o predicado que mais contribui para a identidade da banda.  Não se está somente perante um trabalho que procura associar duas formas  de expressão (a literária e a musical) por simples justaposição. Embora  este &#8220;processo&#8221; de mera junção tenha resultado (por vezes  brilhantemente) no passado, no álbum em questão a relação entre os dois  mundos é muito mais estreita e modifica profundamente a forma como cada  um deles se revela. Neste sentido pode-se dizer, em jeito de resumo, que  o <strong>Black Metal</strong> aqui presente aparenta uma construção em torno da  expressão escrita sendo, portanto, moldado pela mesma; ao mesmo tempo  que a vertente lírica &#8220;clama&#8221; por ser integrada num contexto tão pessoal  como o <strong>BM</strong> é na sua génese (nomeadamente na sua formulação aqui  presente), o que resulta numa ligação onde a palavra é tão privilegiada  como as habituais dimensões vocais do <strong>BM</strong> (mesmo alargando ao máximo tudo o que o mesmo pode representar).</p>
<p>O  que emana desta correlação profunda é uma obra que se destaca pela  capacidade de transmitir estados de espírito ligados à tristeza e  melancolia de múltiplas formas e todas elas complementares entre si.  Embora seja de somenos importância para a análise a absorção de <strong>Póstumo</strong>, é preciso dizer que estes estados de espírito que percorrem o álbum são o que podem integrar a banda dentro do espectro do <strong>Depressive Black Metal</strong>.  Esta &#8220;integração&#8221; tem necessariamente que se fazer por analogia de  sentimentos e ambientes resultantes dado que a nível das estruturas das  músicas e mesmo na execução de cada um dos elementos, a banda mostra-se  algo distante das características habituais deste subgénero do <strong>BM</strong>.  Só a título de exemplo destas diferenças pode-se verificar que as  músicas não atingem uma área contemplativa e serenamente melancólica  através da repetição exaustiva de alguns riffs, o que encurta  significativamente a duração das músicas; da mesma forma que  instrumentalmente o trabalho é bastante menos minimalista do que na  esmagadora maioria das propostas de <strong>Depressive Black Metal</strong> (independentemente desta abordagem resultar muito bem nalguns casos e  falhar noutros), havendo bastante variedade em todos os instrumentos o  que também origina um trabalho mais multi-facetado e onde sentimentos  &#8220;depressivos&#8221; são abordados de diversas formas.</p>
<p>Acaba por ser, portanto, um enquadramento relativo no subgénero que não deixa de ser um sinal paradigmático da forma como <strong>IE</strong> consegue ser um projecto inventivo e fresco mesmo que &#8220;tocando&#8221; em ambientes de <strong>Black Metal</strong> que se tornaram recorrentes nos últimos anos. Adjectivos como depressivo, melancólico, doloroso ou lutuoso descrevem <strong>Póstumo</strong> mas sozinhos são claramente insuficientes para perceber todo um trabalho que tem na sensibilidade poética a sua maior força.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Review</strong></div>
<p style="text-align:justify;">São várias as dimensões visitadas por <strong>Inverno Eterno</strong> no seu primeiro lançamento. Porventura todas conectadas (latamente)  pela negatividade mas ainda assim bem distintas. A uni-las  definitivamente está o seu carácter póstumo; algo que, por um lado, as  trespassa e, por outro, as define e permite que sejam expostas da forma  como são. É o findar continuado que atravessa o álbum que lhe confere o  lúgubre saudosismo, que &#8220;aviva funebremente&#8221; as emoções de <strong>Póstumo</strong>.  Assim, e não apenas pelo enquadramento estético da palavra (que no caso  é bastante, diga-se), o trabalho parece (em retrospectiva) não poder  ser definido de outra forma, se só uma palavra pudesse ser usada. É  simultaneamente descrição de obra e inscrição de lápide, uma criação  desconectada do momento presente &#8220;somente&#8221; experienciada, quer pela  universalidade e atemporalidade dos sentimentos dilacerados, quer pela  crueza das feridas expostas no trabalho. No fundo (e usando as palavras  da banda), <strong>Póstumo</strong> não é &#8220;daqui&#8221;; é &#8220;do passado, da idade do fim&#8221;.</p>
<p>Compreendendo  este estado de espírito que paira sobre o álbum, não é difícil perceber  que a expressão deste outro mundo (cuja dor será o resquício maior) se  conecta com o código genético do que é o <strong>Black Metal</strong> na(s) sua(s) vertente(s) mais intimista(s). Retrospectivamente parecerá quase uma inevitabilidade, este passo que foi dado por <strong>Inverno Eterno</strong> rumo a um tipo de <strong>BM</strong> que canaliza os mesmos sentimentos melancólicos e dolorosos, como é o caso do <strong>Depressive Black Metal</strong>.  Contudo, a banda foge não raras vezes a vários paradigmas do subgénero  em questão, o que gera as dificuldades de enquadramento já mencionadas  mas as afinidades naturais entre os quadros emocionais pintados pela  banda e os que o subgénero referido produz, são inegáveis. Abrangência e  êxito finais (comparativamente, claro) são considerações, por agora, de  parte.</p>
<p>O que é de mais difícil compreensão é precisamente o que  está para lá desta &#8220;naturalidade&#8221;. É, igualmente, um dos grandes pontos  de interesse do álbum, seja a nível estético ou analítico (nomeadamente,  neste último campo, no que concerne à &#8220;procura&#8221; de traços inovadores no  trabalho). De forma mais concreta, a questão consubstancia-se na  capacidade de tornar tão intensa e real a relação com a &#8220;Portugalidade&#8221;.  É, claro, nas letras que esta ligação é mais notória (embora o  instrumental também surja frequentemente como &#8220;devedor&#8221; desta conexão)  mas há que dizer que as mesmas vão para além de estarem escritas em  português. Acima de tudo, encarnam algumas das características mais  fatalistas da essência portuguesa. Devido à forte incidência literária  do trabalho de <strong>Inverno Eterno</strong> e à influência que autores já  referidos têm na lírica do álbum, poder-se-ia assumir que os ambientes  tão portugueses do mesmo se deveriam a um revisitar da &#8220;Portugalidade&#8221;  como definida pelos mesmos. Esta percepção seria, no mínimo, redutora. A  verdade é que <strong>Póstumo</strong> partilha com <strong>Pessoa</strong> e <strong>Camões</strong> (usados aqui a título de exemplo não exclusivo) a capacidade de definir  o fado saudosista e tantas vezes trágico que marca o carácter do que é  Português, nomeadamente na sua língua. É uma partilha e não uma réplica  pois o trabalho apresenta-se como um lado mais negro e gritante dessa  &#8220;Portugalidade&#8221;. Não é, portanto, uma abordagem que privilegie a  expressão ligeira da saudade (que mais não é que a vulgarização pálida  desse sentimento) mas algo que está mais próximo do verdadeiro valor  expressivo desta &#8220;essência&#8221; e que é (sobretudo neste trabalho) funesto e  &#8220;carregado&#8221; de desesperança.</p>
<p>A obra em questão vive, no entanto,  bastante para além da valência puramente conceptual do trabalho. Isto  é, também na abordagem &#8220;sonora&#8221; (em sentido mais estrito) é distinto e  elevado. Mais do que isso, é-o a vários níveis. As opções de produção  ajudam imenso a expor a diversidade aqui presente, sendo que a variedade  (seja dos diversos elementos musicais, seja dos mundos emocionais que  visita) é precisamente um dos pontos que mais surpreende e valoriza a  experiência de <strong>Póstumo</strong>. A banda optou por uma produção que se  pode, de alguma forma, designar de limpa e clara. Simultaneamente há uma  sensação de &#8220;espaço&#8221; entre os diversos instrumentos e a voz, o que  permite distinguir detalhes que, com uma produção mais sobreposta, não  se destacariam tanto, nomeadamente os belíssimos momentos limpos da  guitarra. Apesar disto, consegue existir um balanceamento hábil com uma  certa crueza no som que dá azo a um ambiente especialmente carregado nas  alturas em que os riffs mais intensos se juntam com os lamentos  desesperados da voz. A atmosfera mantém-se assim limpa mas densa ao  mesmo tempo. Não se valendo apenas da distorção e do &#8220;nevoeiro sonoro&#8221;, o  álbum escapa à unidimensionalidade e apresenta ambientes mais diversos  que exploram diversas &#8220;facetas&#8221; dos sentimentos negros e soturnos que  cobrem o trabalho.</p>
<p>Contudo, é evidente que as potencialidades  deixadas em aberto pelo tipo de produção nunca seriam cumpridas caso a  banda não conseguisse estar à altura de &#8220;preencher&#8221; um som que  privilegia tendencialmente o pormenor. Não só isto é conseguido em pleno  como também surpreende a forma como elementos tendencialmente menos  proeminentes num tipo de <strong>Black Metal</strong> mais introspectivo, aqui se  destacam e contribuem em muito para todo o ambiente do álbum. Sem  prejuízo de iguais qualidades poderem ser aplicadas aos outros  intervenientes, a bateria destaca-se precisamente pelo detalhe,  variedade e sobretudo no enriquecimento do som de <strong>Póstumo</strong>.<br />
O  trabalho da bateria do álbum partilha com muitos outras obras do género a  simplicidade de execução, mas as semelhanças cessam quando se entra no  capítulo da diversidade composicional. Em vez de enveredar por terrenos  mais minimalistas e/ou de reduzida ênfase geral nas músicas (assumindo  pouco mais que uma função de manutenção de ritmo), a bateria de <strong>Inverno Eterno</strong> mostra-se bastante dinâmica e multifacetada, o que permite pontuar com  singularidade diversas passagens do álbum. Muito do que destaca na  bateria advém da incorporação de padrões algo &#8220;estranhos&#8221; ao <strong>BM</strong> (no que concerne a este elemento específico, entenda-se), muitos deles nada distantes do universo <strong>Post-Punk</strong> (o som algo &#8220;seco&#8221; da tarola é um bom exemplo disto mesmo). Esta  abordagem pouco ortodoxa da bateria torna-se especialmente interessante  nos momentos mais lentos em que a bateria se revela mais criativa com  padrões bem diferentes do que é habitual ouvir, mesmo em sonoridades  dentro do <strong>Black Metal</strong> com tempos mais lentos. O &#8220;esoterismo&#8221; de <em>&#8230;O Cansaço De Viver</em> aparece como momento de destaque neste aspecto. A bateria consegue  igualmente soar inventiva e peculiar em momentos ligeiramente mais  acelerados, incutindo uma tensão dramática que contribui decisivamente  para o ambiente do álbum (algo que não acontece com grande frequência em  sonoridades do género). A contribuição específica deste factor pode ser  verificada nas sublimes passagens de <em>À Sombra Do Passado&#8230;</em> onde os devaneios da bateria suportam de forma perfeita o crescendo de intensidade dos riffs nas secções finais do tema.</p>
<p>A propósito das influências exteriores ao <strong>BM</strong> no som de <strong>IE</strong>, estas não se esgotam na bateria. Também o baixo apresenta traços característicos dos mesmos ambientes <strong>Post-Punk</strong>, trazendo à memória o nome de <strong>Joy Division</strong> ou mesmo certos momentos mais hipnóticos e obscuros de <strong>Bauhaus</strong>.  O resultado é bastante apelativo pela forma como não raras vezes as  linhas de baixo seguem em direcções bastante diferentes dos riffs da  guitarra, conferindo à música diversos pontos de condução. Continuando a  linha de destaque, o baixo também assume a espaços um papel condutor  geralmente reservado à guitarra (sobretudo quando esta produz alguns  momentos limpos) algo que também se pode verificar nalgumas das bandas  &#8220;pertencentes&#8221; às influências estilísticas mencionadas. A prova mais  cabal desta &#8220;função&#8221; do baixo será certamente parte inicial da já  referenciada última faixa, onde o baixo conduz grande parte da música.<br />
O  trabalho de baixo torna-se especialmente memorável pela forma como, um  pouco à semelhança de todos os elementos aqui constantes, a simplicidade  de processos dá origem a uma enorme heterogeneidade composicional. Este  desempenho permite uma assunção de papéis bastante mais alargados do  que seria de esperar mas permite igualmente fazer-se notar através de  uma série de pormenores que, além de valerem pela sua própria elegância,  complementam na perfeição as paisagens negras pintas pela voz e pelos  riffs. Muitos deste &#8220;movimentos&#8221; do baixo são subtis e até se poderá  dizer que ocorrem em pano de fundo mas torna-se especialmente  enriquecedor para a absorção da obra verificar a forma como o baixo abre  caminho para novas &#8220;zonas&#8221; emocionais (inevitavelmente dolorosas)  quando o foco principal até são outros elementos, como acontece em <em>A Noite Que Perdura&#8230;</em> e <em>&#8230; Na Memória</em>.</p>
<p>A  alusão a &#8220;foco principal&#8221; terá obrigatoriamente que passar pela  guitarra. A par da voz, o trabalho de guitarra é o corpo emotivo de <strong>Póstumo</strong>;  complementado e acrescentado com mestria pela secção rítmica. Nos riffs  pungentes da guitarra reside a expurgação (neste caso instrumental) de  todo um conjunto de sentimentos ligados à desolação e tristeza. Como não  poderia deixar de ser, e à semelhança de tudo o resto, a guitarra  oferece uma combinação de vários elementos para construir este mundo de  sofrimento. Isto acontece tanto ao nível das técnicas utilizadas, como  dos ambientes criados.<br />
É de notar, ao nível da execução, que a  guitarra varia bastante sendo que se podem encontrar partes limpas,  diversos dedilhados (a maioria também sem distorção), riffs com  variadíssimas influências e mudanças de ambiente. Além da forma como  tudo isto se vai, de alguma forma, intervalando (criando já de si um  acentuado dinamismo) há que perceber que os próprios riffs distorcidos  não se limitam a uma só esfera de sentimentos &#8220;depressivos&#8221;. O ambiente é  construído através de um trabalho que explora riffs mais lentos  embebidos numa distorção que gera sensações de cortante (e constante)  agonia, mas que consegue igualmente ter uma certa dose de  &#8220;agressividade&#8221; (sem nunca perder a taciturnidade característica,  claro). Assim, o efeito é contemplativo mas também opressor (neste  último aspecto a voz também tem papel decisivo), havendo um conjunto de  estados de espírito que exploram &#8220;facetas da dor&#8221; bem distintas.<br />
É  precisamente o entrecortar entre os riffs distorcidos e as passagens  limpas que cria alguns dos grandes momentos do álbum. Além da enorme  qualidade dos riffs do álbum, estes momentos limpos (muitos deles em  forma de belíssimos dedilhados) merecem igualmente grande destaque.  Algumas das passagens mais memoráveis pela sua profundidade emocional  coincidem precisamente com secções onde estes dedilhados surgem em jeito  introdutório e &#8220;estabelecem&#8221;, desde logo, um ambiente etéreo (ainda que  dominado pela mágoa) de enorme intensidade. <em>Depois Que Tu Morreste&#8230;</em>,  a grande opus do álbum (sem prejuízo de tudo o resto), não poderia ser  exemplo mais paradigmático. Nesta música em particular podem-se  encontrar passagens que, de certo modo, fazem lembrar o trabalho  intermédio de <strong>Burzum</strong> (nas partes limpas) e dos dois primeiros longa-duração de <strong>Forgotten Woods</strong> (no tipo de riffs e tom da distorção), mas onde se nota simultaneamente uma identidade emotiva muito própria.</p>
<p>Esta identidade é precisamente aquilo que sobressai e se destaca em <strong>Póstumo</strong> quando olhado o trabalho de forma global. Tal visão advém precisamente  de uma intimidade negativista que só é possível graças à forma bastante  como todos os pesares surgem tão perto e tão intensamente. Uma &#8220;não  representação&#8221; artística que é substituída pela evocação profunda de  pesadelos que urgem de expurgação. É isto que mais particulariza <strong>Inverno Eterno</strong>;  e é isto que mais se pode sentir nos vocais transcendentes que espalham  por todo o álbum &#8220;angústias infindas&#8221; (expressão encontrada nas letras  de <em>A Noite Que Perdura&#8230;.</em>).<br />
Este sufoco permanente que está  no âmago de tudo o que é o álbum, surge das mais variadas e dolorosas  maneiras, atingindo assim um conjunto inumerável de sensações negras e  fúnebres. O &#8220;trabalho&#8221; vocal (que no fundo não o é, dado ser  apriorístico a qualquer racionalização) é assim uma analogia perfeita da  cruel diversidade de uma mágoa profunda que através de múltiplos  tormentos conduz à consumpção do ser. Gritos de dilacerante desespero,  lamentos chorados, bramidos distantes, vulneráveis segmentos falados ou  rugidos num registo mais grave, tudo isto são vocalizações que se podem  encontrar aqui. Tudo faces de um definhamento claudicante que chega  paulatina mas firmemente. Algumas das paisagens mais desesperadas  criadas por <strong>IE</strong> ocorrem quando estes registos se intercalam, dando origem a autênticos jazigos de alma como é o caso de <em>A Noite Que Perdura&#8230;</em> e <em>&#8230;O Cansaço De Viver</em>.<br />
É  de notar que, só por si, a dinâmica da voz é bastante expressiva e  transmite uma enorme sinceridade. Esta última impressão emana da  naturalidade como a voz se &#8220;adapta&#8221; a diversos retratos de dor, não se  mantendo num único registo sofrido que poderia esgotar-se em momentos  que &#8220;clamam&#8221; por um tipo de vocalizações menos monótonas. No entanto, e  dada a relação que <strong>Póstumo</strong> tem com a palavra, esta expressividade  é reforçada. É-o visto que os muitos registos vocais estão em perfeita  &#8220;consonância&#8221; com a vertente lírica apresentada no trabalho; lírica esta  que prima pela deambulação e que tem na &#8220;voz&#8221; o perfeito complemento  para este vagueio. Como já havia sido sugerido, a dimensão diacrónica  quanto à origem do elemento lírico e do elemento vocal esbate-se, tão  estreia que é a relação entre ambos (e de ambos para com o instrumental,  ressalve-se). Para mais, o facto de serem usados alguns trechos de  obras literárias (cujos autores já foram mencionados), torna a  vinculação entre voz e letras ainda mais interessante do ponto de vista  de uma certa revisitação do cânone literário, nomeadamente quando essas  passagens parecem tão incrivelmente identificadas com o tipo de  desempenho vocal presente. Identificação que parece tão inata mas que  nunca havia sido tentada no <strong>BM</strong> português (a limitação surge  naturalmente devido à língua usada); ao mesmo tempo que,  comparativamente, nunca surge de forma tão instintiva (como aqui)  noutros campos musicais.</p>
<p>O que se percebe então é que o valor  puramente musical (aqui em estrito sentido sonoro) é esmagador; mas que o  valor estético da obra obriga à interiorização da riquíssima vertente  escrita do álbum sob pena de grande parte da compreensão do mesmo ser  perdida. Isto seria certamente catastrófico devido à magistralidade  lancinante da mesma.<br />
Estas qualidades são demonstradas logo à partida  pela forma superior como as influências literárias são &#8220;integradas&#8221; sem  nunca se cair na cópia pura. Mesmo nas letras onde são usados excertos  de <strong>Fernando Pessoa/Álvaro de Campos</strong>, <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> e <strong>Vergílio Ferreira</strong>, a identidade lírica de <strong>Inverno Eterno</strong> está bem patente. Até porque estas influências são, de alguma forma,  transformadas em algo (ainda) mais desesperante pela &#8220;pena&#8221; de <strong>IE</strong>. Assim, além do &#8220;exercício&#8221; de excruciante revisitação e, de certa forma, homenagem aos autores referidos, há uma escrita em <strong>Póstumo</strong> que se basta. Certamente que existem temas e imaginários que percorrem a  obra destes vultos da língua Portuguesa que são aqui abordadas. No  entanto, estas afinidades conceptuais não são um banal plágio temático  mas sim o resultado de uma certa visão emocional da existência que é  partilhada com esses mesmos escritores, ainda que num tom de extremada  angústia.<br />
É particularmente interessante verificar este duplo rumo na escrita de <strong>IE</strong> nas letras que contém trechos de autores que muito influenciam a banda,  visto que nesses momentos a &#8220;ligação revisitada&#8221; aos mesmos torna-se  mais forte, destacando-se, a excelência das passagens escolhidas e da  escrita original do colectivo. São nestes momentos em que se tornam  especialmente evidentes as conexões à escrita inicial de <strong>Mário de Sá-Carneiro</strong> e aos momentos mais decadentes e pessimistas de <strong>Álvaro de Campos</strong>; uma espécie de &#8220;alma mater&#8221; negativista que forma tanto os mestres em questão, como a entidade <strong>Inverno Eterno</strong>.</p>
<p>Veja-se, exemplificativamente, o simbolismo decadentista de <strong>Sá-Carneiro</strong> &#8220;recuperado&#8221; nos cortantes versos de <em>Enquanto A Morte Demora&#8230;</em>, faixa que tem precisamente no seu início um excerto do poema <em>Partida</em> de <strong>Dispersão</strong>. O encadeamento entre a primeira estrofe (da autoria de <strong>Sá-Carneiro</strong>) e a segunda (da autoria de <strong>IE</strong>) mostra tanto a perfeita integração do imaginário do autor na música de <strong>IE</strong>, como a &#8220;abordagem&#8221; da banda à mesma corrente literária:<em> </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>«&#8221;A minha alma nostálgica de além,<br />
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,<br />
Aos meus olhos ungidos sobre um pranto<br />
Que tenho a força de sumir também.&#8221;</em></p>
<p><em>No céu carregado de luto,<br />
A sombra do meu ser finda.<br />
Em avenidas abandonadas e em ruínas<br />
Soltam-se ecos do passado,<br />
Gritos distantes e distorcidos.</em>»</p>
<p>O mesmo sentido de familiaridade temática é encontrado n&#8217;<em>&#8230;O Cansaço De Viver</em> &#8211; faixa que encerra contundentemente o trabalho. Familiaridade com <strong>Sá-Carneiro</strong>, mas simultaneamente com a fase inicial e final da obra de <strong>Álvaro de Campos</strong>. No caso, é usada uma passagem do assombroso <em>Opiário</em> (primeira estrofe da citação), seguindo-se as palavras da banda  (segunda e terceira estrofes). A saturação decadentista e a temática do  cansaço (esta última brilhantemente abordada no poema <em>O Que Há</em>) revisitam <strong>Pessoa</strong> ao passo que o labiríntico desespero na dúvida do sentir (ou não sentir) evoca <em>Dispersão</em> (da obra com o mesmo nome) de <strong>Sá-Carneiro</strong>:<br />
<em> </em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>«&#8221;Porque isto acaba mal e há-de haver<br />
Sangue e um revólver lá pró fim<br />
Deste desassossego que há em mim<br />
E, não há forma de se resolver.&#8221;</em></p>
<p><em>Sinto a alma doente,<br />
por uma vida a que não pertenço.<br />
Todo eu sou um cansaço,<br />
De gestos inúteis e palavras vãs.</em></p>
<p><em>Vendo hoje o que vivi,<br />
Surge-me a dúvida de o ter vivido;<br />
Reconheço as sensações<br />
Como um alguém intermédio.</em>»</p>
<p>Como já amplamente ressalvado que as influências literárias surgem como complemento a uma essência própria de <strong>Inverno Eterno</strong>.  Nos exemplos anteriores deslindam-se momentos de estreita relação de  espaços emocionais, de forte conexão temática e de criação mais  &#8220;autónoma&#8221;. Nunca é demais referir que esta última instância tem  identidade e sobretudo vitalidade (ainda que esta &#8220;vitalidade&#8221; seja  consubstanciada por um mundo mortuário) próprias, independentes dos  mestres que tanto partilham com o colectivo.<br />
É inegável que existe em <strong>Póstumo</strong> uma &#8220;literatura&#8221; que vale por si só: qualitativamente mas também  estilisticamente. Sobre este último aspecto o carácter profundamente  intimista do trabalho pinta quadros de violenta melancolia que  consubstanciam uma expressão bastante própria a nível de escrita. A dor é  simultaneamente frágil e violenta; contemplativamente pessimista e  tomada por espasmos de desespero. Todas estas dimensões depressivas que  atravessam a obra estabelecem o domínio próprio da escrita da banda.<br />
Aliás,  a mesma inicia-se praticamente com uma das demonstrações mais intensas  desta espécie de relação dicotómica que a dor assume no álbum, logo na  segunda faixa (a que se segue ao <em>Prólogo</em>). Nesta faixa em  particular aborda-se a desaparição emocional do momento presente pela  associação com a imagem do passado. Este passado não é, no entanto,  espaço de apaziguo. É sim, lugar de desolação e penumbra. Muitas destes  estados de alma vão sendo reproduzidos ao logo do álbum mas surgem em  algumas das estrofes de <em>À Sombra Do Passado&#8230;</em> na sua forma mais angustiante e paradigmática:<br />
<em></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>«De ímpeto estalou tudo,<br />
A realidade ociosa e febril<br />
Enfermou-me a alma.</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p>
<p><em>Cada cicatriz uma lembrança,<br />
Cada gume um sentimento.<br />
Eu não me sinto daqui -<br />
Sou do passado, da idade do fim&#8230;</em>»</p>
<p>Apesar  do incontornável destaque que urge ser dado a determinados momentos  (por servirem de paradigmas qualitativos e estilísticos do que por pelo  álbum apresentar clivagens qualitativas), o que predomina no trabalho é  um claro e inequívoco &#8220;sentimento&#8221; de unidade. Um &#8220;sentimento&#8221; tanto  mais importante pela forma como se valoriza a obra através de uma  conexão profunda entre as diversas faixas. Esta unidade (particularmente  meritória na sua construção) é de análise intrincada porque as várias  dimensões de lugubridade nunca deixam de ser memoráveis por si só, mesmo  numa lógica conceptual comum. Simbolicamente esta ligação entre os  movimentos do álbum torna-se mais clara nas próprias designações das  faixas. Exceptuando o momento introdutório, as restantes oito músicas  estão ligadas (duas a duas) pelos seus títulos, sugerindo inícios e fins  para além da divisão imediata.<br />
Além desta formulação particular,  existe uma complementaridade profunda entre faixas que são,  estruturalmente, bem distintas. Assim, podem-se encontrar momentos mais  curtos e de alguma forma &#8220;directos&#8221; que estão em profunda consonância  com faixas mais longas e flutuantes a nível dos ambientes nelas  contidas. Isto sucede até pela forma como a estrutura e conteúdo não são  facilmente dedutíveis apenas pelo tempo de duração de cada música, o  que se traduz, na prática, em abordagens estruturais diferentes a tempos  mais rápidos ou mais lentos que não passam necessariamente pelos  critérios de imediatismo nas músicas curtas ou, pelo contrário, de maior  durabilidade conceptual das faixas mais longas. Este aparente (e apenas  isso quando contemplado o resultado final) paradoxo de &#8220;heterogeneidade  unificada&#8221; mantém níveis de intensidade bastante semelhantes,  independentemente do &#8220;formato&#8221; global da faixa.</p>
<p>Não será,  portanto, difícil de depreender que se torna particularmente complicado  destacar algo perante este cenário. Tornar-se-ia até desnecessário  fazê-lo não fosse pela presença de algo que se consegue elevar acima da  excelência geral de <strong>Póstumo</strong>, &#8220;forçando&#8221; a excepção. Algo que, de  forma única encerra e contém em si, não só o que a obra tem de mais  grandioso; mas também frisa, de forma única, toda a emocionalidade  penosa da mesma. Simultaneamente este é o momento em que o álbum soa  mais original num sentido mais &#8220;formal&#8221; do termo. No entanto, é aqui  destacado, acima de tudo e antes de mais nada, pelo intimismo de um  desespero (quase) tangível que se apresenta tão negro quanto belo.  &#8220;Sonoramente&#8221;, a música em questão é marcada pelos acordes de uma  tristeza serena mas profunda; pela voz na fronteira do asfixio provocado  pela dor da perda permanente; e pela fragilidade tocante daquele  assobio saudoso. Quanto ao resto, ao impacto emocional de tamanho  monumento, tudo parece eufemístico para descrever o &#8220;alcance&#8221; de <em>E Depois Que Tu Morreste&#8230;</em>:<br />
<em></em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>«Ilusões amaldiçoadas que me exaurem,<br />
Numa existência enleada de sombras,<br />
De cicios perturbadores&#8230;</em></p>
<p><em>E depois que tu morreste,<br />
Dura em mim<br />
uma saudade sem idade,<br />
Uma dor que não tem fim&#8230;</em>»</p>
<p>Confessava <strong>Vergílio Ferreira</strong> na sua obra <strong>Para Sempre</strong>,  precisamente nas &#8220;proximidades&#8221; do trecho usado numa das faixas aqui  presente, estar &#8220;triste até à morte&#8221;. Se a inicial menção a <strong>Sá-Carneiro</strong> possuía o dom de resumir o &#8220;âmago&#8221; do que é a obra inicial de <strong>Inverno Eterno</strong>; a expressão de <strong>Vergílio Ferreira</strong> resume, com igual virtuosismo, o que &#8220;resta&#8221; depois de <strong>Póstumo</strong>&#8230;</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Conclusão</strong></div>
<p style="text-align:justify;">A  experiência tida de uma obra com as características da presente poderá  ser dicotómica: por um lado o sentimento de elevação resultante da  interiorização da grandiosidade artística da obra; por outro as  consequências profundamente devastadoras da interiorização dos espaços  emocionais visitados pela mesma. A conciliação deste aparente  antagonismo surge na definição da própria criação artística. Quando a  arte &#8220;mais não é&#8221; que a reprodução para fins de inteligibilidade e  catarse do fenómeno trágico, os dois enunciados acima entram em &#8220;rota&#8221;  de complementaridade profunda. Partindo desta &#8220;junção&#8221; o universo  particular (universo doloroso) é metáfora que através da criação  artística retrata a própria universalidade do sofrimento.</p>
<p>Ainda  que tal hipótese seja rejeitada, a realização estética do trabalho  continua a ser de imensurável valia. Da mesma forma, também a sua  abordagem ao <strong>Black Metal</strong> faz pensar, ainda que apenas por instantes, que poderá haver algo mais do que enquadramento geográfico por detrás da expressão <strong>Black Metal</strong> &#8220;Português&#8221;. Não pela plausibilidade efectiva de tal designação poder  representar algo estilisticamente, mas pela forma como encerram em si  tantos &#8220;fados&#8221; só na &#8220;ocidental praia lusitana&#8221; encontrados.<br />
A  capacidade de reproduzir, paradigmaticamente, estados de alma de uma  &#8220;Portugalidade&#8221; é partilhada por uma outra obra literária para além das  já mencionadas (e outras que ficaram por mencionar, claro): <strong>Só</strong> de <strong>António Nobre</strong>.  Há que ressalvar as diferenças nos elementos usados e que remetem para  uma melancolia bucólica. No entanto, é obra que também parte de um olhar  profundamente fatalista, de uma eterna doença de alma. Sobretudo, a  analogia faz-se através da descrição que o próprio <strong>Nobre</strong> (não por acaso tão admirado por mestres que influenciam directamente <strong>Inverno Eterno</strong>) faz da sua emblemática obra: &#8220;é o livro mais triste que há em Portugal!&#8221;. É isto que também significa <strong>Póstumo</strong> no seu &#8220;campo&#8221;: o álbum mais doloroso e genuinamente triste feito em Portugal.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>PhiLiz</strong><br />
<strong>Escrito originalmente em 2010.10.14</strong></div>
<br />Filed under: <a href='http://philiz.wordpress.com/category/reviews/'>Reviews</a> Tagged: <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/depressive-black-metal/'>Depressive Black Metal</a>, <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/inverno-eterno/'>Inverno Eterno</a>, <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/postumo/'>Póstumo</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/philiz.wordpress.com/373/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/philiz.wordpress.com/373/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=373&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Bizarra Locomotiva &#8211; Álbum Negro (2009)</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 06:26:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>PhiLiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reviews]]></category>
		<category><![CDATA[Álbum Negro]]></category>
		<category><![CDATA[Bizarra Locomotiva]]></category>
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		<category><![CDATA[Industrial Rock]]></category>

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		<description><![CDATA[Artista: Bizarra Locomotiva Álbum: Álbum Negro Ano: 2009 Género: Industrial Metal/Rock País: Portugal Editora: Raging Planet Tracklist: 01 &#8211; Nostromo 02 &#8211; Êxtases Doirados 03 &#8211; Remorso 04 &#8211; O Anjo Exilado 05 &#8211; Ergástulo 06 &#8211; Sufoco De Vénus 07 &#8211; A Procissão Dos Édipos 08 &#8211; Engodo 09 &#8211; Láudano 3 10 &#8211; [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=44&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="msg_64357" style="text-align:justify;">
<div style="text-align:center;"><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img260.imageshack.us/img260/4055/bizarralocomotivalbumne.jpg" border="0" alt="" width="528" height="451" /></p>
<p><strong>Artista:</strong> Bizarra Locomotiva<br />
<strong>Álbum:</strong> Álbum Negro<br />
<strong>Ano:</strong> 2009<br />
<strong>Género:</strong> Industrial Metal/Rock<br />
<strong>País:</strong> Portugal<br />
<strong>Editora:</strong> Raging Planet</p>
<p><strong>Tracklist:</strong><br />
01 &#8211; Nostromo<br />
02 &#8211; Êxtases Doirados<br />
03 &#8211; Remorso<br />
04 &#8211; O Anjo Exilado<br />
05 &#8211; Ergástulo<br />
06 &#8211; Sufoco De Vénus<br />
07 &#8211; A Procissão Dos Édipos<br />
08 &#8211; Engodo<br />
09 &#8211; Láudano 3<br />
10 &#8211; Outono<br />
11 &#8211; Egodescentralizado<br />
12 &#8211; Angústia<br />
13 &#8211; O Grito<br />
14 &#8211; Prótese</p>
<p><strong>Membros:</strong><br />
&#8220;BJ&#8221; &#8211; Teclado<br />
Miguel Fonseca &#8211; Guitarra<br />
Rui Berton &#8211; Bateria<br />
Rui Sidónio &#8211; Voz</p>
<p><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img176.imageshack.us/img176/9559/dsc0404b.jpg" border="0" alt="" width="429" height="640" /></div>
<div style="text-align:center;"><strong>Introdução</strong></div>
<p>Os contornos da viagem de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> sempre foram definidos por uma enorme afirmação do lado oculto e  improvável das coisas mundanas. Mesmo quando se tratam temas mais ou  menos comuns (e tal não acontece com tão pouca frequência como se  poderia pensar à partida), a abordagem é sempre bastante pouco usual,  revestindo-se de uma sensibilidade característica ou simplesmente  despindo-se por completo da mesma, numa retractação quase maquinal de  realidades comuns. Esta característica transversal a toda a discografia  da banda tem a sua componente mais visível no que se pode chamar poesia  do &#8220;nojo&#8221; de <strong>Rui Sidónio</strong>, mas também na forma como as diversas influências musicais da banda são mescladas de forma peculiar e acima de tudo, original.</p>
<p>A viragem da página que se deu em <strong>Ódio</strong> conferiu a <strong>Bizarra Locomotiva</strong> uma estabilidade que está logo espelhada nesse álbum e que em muito  justifica a capacidade de a banda ter tido tempo para maturar o trabalho  de 2004 e também conseguir a consistência necessária para lançar um  álbum ainda mais adulto, como é o caso de <strong>Álbum Negro</strong>. As  inesquecíveis aparições ao vivo foram relativamente frequentes e tendo  havido uma continuidade de membros da banda nos anos que separam os dois  álbuns, não é de espantar que uma das principais qualidades globais que  se retiram quase instantaneamente do <strong>Álbum Negro</strong>, seja precisamente a consistência e a coesão entre todas as partes da &#8220;locomotiva&#8221;.</p>
<p>Em  termos &#8220;comparativos&#8221; com o que foi feito no passado há uma clara  sensação que os princípios mais recorrentes (e simultaneamente mais  positivos) da abordagem artística de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> encontram-se presentes de forma mais forte que nunca neste trabalho.  Tanto até, que a banda estica os extremos por si antes definidos e, não  menos importante, consegue fazê-lo em múltiplas direcções. <strong>Álbum Negro</strong> pega em todo um conjunto de características que definem o núcleo do som  único da banda em todos os seus trabalhos anteriores e &#8220;depois&#8221;  consegue transportar a sua experiência sonora para um outro nível,  virtude do aprofundar violento dos predicados que já antes lhe  pertenciam. Revisitam-se espaços e ao mesmo tempo reinventando-se o  &#8220;visitante&#8221; ou, neste caso, reinventando-se a &#8220;máquina&#8221;.</p>
<p>A negritude envolvente o lançamento de <strong>Álbum Negro</strong> justifica-se totalmente: o sexto longa duração (contando o &#8220;híbrido&#8221; <strong>First Crime Then Live</strong> enquanto tal) mostra-se como um monstro sombrio com a idiossincrasia de  um buraco negro, não só pela ausência de luminosidade, mas também pelo  crescer que esta ausência provoca na sua essência brutal e soturna. Tudo  isto oferecido num mundo (construído de forma cada vez mais inteligente  e notável) onde a bizarria (o emprego do termo é muito mais do que um  trocadilho) reina.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Review</strong></div>
<p>O <strong>Álbum Negro</strong>. Soa a paradigma e a momento decisivo. No caso de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> é exactamente isso e algo mais ainda. É assumir a roupagem do que é  tenebroso por cima de uma identidade já de si obscura e conturbada,  sendo que no final, tanto o negro como o bizarro se moldam um ao outro e  claro, emerge uma triunfal mudança. Mudança com contornos de  familiaridade (e que no caso de <strong>Bizarra</strong> vale imenso), mas ainda  assim uma dilatação para terrenos até então menos explorados, ou  explorados de uma outra forma. Formam-se pois momentos em que a  escuridão absoluta é rasgada por algumas sombras; a frase poderá parecer  paradoxal, mas adequa-se perfeitamente a um álbum também, de certa  forma, paradoxal pela capacidade de ter silhuetas que se denotam e  destacam, mesmo que essas mesmas estejam envoltas no asfixio da cor.</p>
<p>À partida o universo de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> já se caracteriza pela distorção dos padrões habituais que rodeiam a  idiossincrasia do género musical da banda (musical e conceptualmente).  Musicalmente afastados do <strong>Industrial</strong> mais tradicional pelo estrépito provocado (sensivelmente a mesma razão que os afasta do <strong>Industrial Rock</strong>) e demasiado extravagantes mesmo para o conceito alargado de <strong>Industrial Metal</strong>, não obstante o peso inerente a <strong>BL</strong> e que neste <strong>Álbum Negro</strong> é maximizado em todas as direcções. À fúria visceral de <strong>Ódio</strong> juntam-se um conjunto de atmosferas perturbadoras que dão ainda mais  corpo ao som já de si esmagador do bizarro colectivo. Sensorialmente a  sensação claustrofóbica impera com a maquinaria pensada ao pormenor para  deixar passar apenas a necessária dose de alívio melódico para que tudo  não seja demasiado estratosférico. Deste equilíbrio vive a expressão do  <strong>Álbum Negro</strong> e sobretudo a expressão frequentemente doentia da lírica singular de <strong>Rui Sidónio</strong>, factor essencial para que tudo faça sentido na desolação do habitual, desconstrução esta que percorre e identifica o álbum.</p>
<p>Constitui-se  então aquilo que é o essencial no trabalho: a relação entre a palavra  maldita e obscura (aqui especialmente obscura) de <strong>Sidónio</strong> e o conturbado mundo de pesadelo criado por <strong>Miguel Fonseca</strong> (compositor exclusivo do trabalho), situando nos pilares da electrónica  assombrosa e agressiva e nos riffs distorcidos (o adjectivo tem uso  duplo) que se juntam perfeitamente com os sons dissonantes que são  disparados pelos samples. Os adjectivos que fazem jus aos momentos de  génio gritado de <strong>Sidónio</strong> são os mesmos que se poderiam aplicar a todo o ruído cadenciado que sai da mente do antigo mentor de <strong>Thormenthor</strong>.  Tudo surge à beira do abismo nesta relação homem-máquina, com o caos a  pairar com o choque das duas principais forças por detrás da negritude  aqui encontrada. A &#8220;unir&#8221; a vertente instrumental à vertente  vocal-lírica, encontra-se o conceito do álbum baseado no livro do séc.  XV, <strong>Hypnerotomachia Poliphili</strong>, que explora a fase hipnagógica do  sono. Segundo a banda, o processo criativo do álbum passou precisamente  pelo aproveitamento de alguns desses momentos para construir aquilo que é  todo o imaginário lírico, musical e visual do <strong>Álbum Negro</strong>, onde  espaços da Idade Média e ambientes futuristas convivem  fragmentariamente. Faz sentido já que das imagens estranhas criadas pelo  binómio palavra/som vive <strong>BL</strong> e desta vez ainda de forma mais acentuada e acima de tudo refinada.</p>
<p>Tamanho  monstro conceptual requisitou mais potência, mais peso e mais densidade  no som. Tudo é ainda mais preenchido do que no passado e os sons  parecem mais diversificados, acompanhados por aquele que é o gutural  português com mais capacidade de transmissão lírica (e que lírica,  diga-se de passagem). Os samples imaginados por <strong>Miguel Fonseca</strong> e executados por <strong>BJ</strong> fazem parte, juntamente com os sintetizadores, da maquinaria de <strong>Bizarra Locomotiva</strong> e a sua presença faz-se sentir com mais força em momentos mais cadenciados como o início viciante de <em>Engodo</em>, as fantasmagóricas incursões em <em>Outono</em> ou a conjunção entre os samples dissonantes e os subtis apontamentos dos sintetizadores em <em>Ergástulo</em>. Qualquer um dos momentos mencionados é marcante no <strong>Álbum Negro</strong> e não será grande atrevimento alargar isto a toda a carreira de <strong>BL</strong>. Além deste papel mais &#8220;melódico&#8221;, os sintetizadores e sobretudo alguns dos samples criam uma áurea bastante <strong>Industrial</strong> de uma forma, que sendo pesada (às vezes extremamente), não é ligada ao cânone do <strong>Industrial Metal</strong>.  Assim sendo, o seu peculiar uso é em boa parte responsável pelo som  único da banda. Torna-se especialmente evidente quando se ouve o  arrastado ritual d&#8217;<em>A Procissão Dos Édipos</em> ou o claustrofóbico e tóxico ambiente do <strong>Spoken Word</strong> doentio de <em>Angústia</em>.</p>
<p>A completar o ataque rítmico temos a bateria de <strong>Rui Berton</strong> (também da mente de <strong>Miguel Fonseca</strong>)  em perfeita integração e (des)harmonia com as paisagens dos samples e  sintetizadores. Esta integração é notória em faixas mais aceleradas onde  o martelar constante é providenciado tanto por <strong>Berton</strong> como pelos samples de <strong>BJ</strong>. Este é de resto um dos traços mais característicos do espectro mais <strong>Industrial</strong> do trabalho já que as faixas mais rápidas apresentam este tipo de  sonoridade metálica e latejante a encher por completo o trabalho. Nas  faixas mais aceleradas como <em>Êxtases Doirados</em> ou o frenético <em>Egodescentralizado</em>, o poder rítmico da máquina por detrás de <strong>BL</strong> é bem evidente sendo que sobra ainda algum espaço para deambulações  menos óbvias no acompanhamento dos restantes elementos. A forma como a  bateria está produzida e colocada ajuda em muito à capacidade da  &#8220;locomotiva&#8221; produzir sons de redobrado poder e intensidade. Nesta  secção e nos momentos referidos há que não esquecer a colaboração <strong>Carlos Santos</strong> como baixista convidado que embora discreto oferece ainda mais &#8220;corpo&#8221; a  algumas das faixas (ouçam-se as linhas palpitantes do baixo em <em>Engodo</em> como exemplo).</p>
<p>Para completar todo o invólucro sonoro da máquina que é <strong>BL</strong> não poderia faltar a instrumentalização por excelência daquele que é o principal compositor do grupo: o guitarrista <strong>Miguel Fonseca</strong>.  O papel das guitarras é claro, vital. Se por um lado o instrumental tem  na bateria, sintetizadores e samples a sua pulsão e circulação, por  outro lado tem na guitarra os seus gritos, uivos e até lamentos. A  imagem mais vezes criada ao ouvir o trabalho é de um rasgar constante,  pela camada distorcida e dissonante, pelos riffs ritmados e de uma  simplicidade terrivelmente eficaz. Predominantemente o efeito é atingido  com as guitarras embebidas em distorção, centradas em riffs monolíticos  que carregam e quebram o som simultaneamente. O trabalho de guitarra  alude a momentos mais ligados ao <strong>Industrial Metal</strong> devido ao peso que contém, embora a escassez do conforto melódico remeta mais para o <strong>Industrial</strong> criando uma atipicidade quanto à forma como a guitarra opera em <strong>BL</strong>, distinguindo-os do que está, musicalmente, à sua volta. Isto porque não são riffs de <strong>Industrial Metal</strong> mas o seu peso também ultrapassa em larga escala o <strong>Industrial</strong> mesmo na sua vertente mais <strong>Rock</strong>. É um híbrido que expele dissonantemente identidade e unicidade, mesmo atendendo ao trabalho passado da banda.<br />
Quando  o lado intrinsecamente brutal e ruidoso se ausenta por breves momentos a  guitarra pode produzir estranhos lamentos como o faz em <em>Outono</em> ou até surpreendentemente cativante como n&#8217;<em>O Grito</em>,  mostrando uma capacidade de variação para além da reconhecida aptidão  para (des)construir faixas com riffs duros e distorcidos. Neste último  campo, poder-se-ia destacar quase todo o trabalho mas torna-se  especialmente interessante apreciar a forma como riffs tão simples  conseguem um efeito tão obscuro como em <em>Sufoco De Vénus</em> ou na lentamente decadente <em>Prótese</em>.</p>
<p>O perturbado mundo do <strong>Álbum Negro</strong> nunca seria o mesmo sem a presença inconfundível do Grito de <strong>Bizarra Locomotiva</strong>. Trespassando de forma violenta e impiedosa todo o instrumental bizarro, <strong>Rui Sidónio</strong> é uma força bruta à solta, a humanidade mais carnal naquilo que é <strong>BL</strong>.  A sua voz é naturalmente perturbadora: não por ser um gutural singular e  visceral, mas porque além disso a força da mensagem é sentida e ouvida  de forma particular. Esta capacidade singular de transmitir mais do que  vocalizar, de dizer mais do que &#8220;cantar&#8221; é o que singulariza <strong>Sidónio</strong> e é o complemento perfeito para os distúrbios instrumentais do resto da  banda. Doutra forma a sensação seria de impotência e incapacidade para  dar continuidade ao muito negro universo que aqui se constrói. É isso  que, por comparação directa, a prestação de <strong>Fernando Ribeiro</strong> no <em>Anjo Exilado</em> prova cabalmente, não obstante a competência da participação do vocalista de <strong>Moonspell</strong>.<br />
No  entanto, as vocalizações do álbum não são apenas momentos que acrescem à  tensão construída pelo instrumental através de brutalidade crua e  primitiva. O assombroso <em>Ergástulo</em> mostra um registo quase sussurrado de uma expressividade não menos contundente do que aquela apresentada quando <strong>Sidónio</strong> parte para a pura agressão. Da mesma forma, a forma inquietantemente tranquila como parte da letra de <em>Prótese</em> é recitada também se afasta do registo mais presente, mantendo intactos os elementos que fazem da voz de <strong>Rui Sidónio</strong> o veículo perfeito para a transmissão da poesia do tormento criada precisamente pelo membro fundador de <strong>BL</strong>.</p>
<p>Desta  poesia única se alimenta o álbum. Única tanto pela riqueza vocabular  como pela peculiar capacidade de tornar o normal em bizarro, sempre com  uma profundidade imensa. Sem qualquer desprimor para com tudo o que  envolve o trabalho: nas palavras de <strong>Rui Sidónio</strong> reside a pedra de  toque do trabalho, o momento em que tudo se define, onde se dá a  (anti)catarse de tudo o que se vai acumulando. Pela lírica de luxuriante  que corre nos <em>Êxtases Doirados</em>, pelas existenciais linhas de <em>Ergástulo</em>, pelas aliterações que se prostram n&#8217;<em>A Procissão Dos Édipos</em>, pelos momentos confessionais de <em>Engodo</em> ou pela dor pura de <em>Angústia</em> estão os cantos do <strong>Álbum Negro</strong>.  As imagens de pesadelo onde tudo é possível pela transcendência da  palavra revoltosa, ininterrupta e à beira do suportável quando aqueles  momentos se encontram bem à flor da pele. É aqui que os sentidos das   palavras de <strong>Sidónio</strong> também se multiplicam, pela ambiguidade que  uma escrita deste género sempre acarreta e também por um subterrâneo  pendor surrealista.</p>
<p>Num álbum dominado pela palavra (a excepção é a introdução e a incursão pela <strong>Industrial</strong> mais electrónica em <em>Láudano 3</em>),  os momentos em que a mesma surge mais marcante e simbólica também são  aqueles que será natural destacar, embora pela qualidade lírica que  atravessa todo o álbum a escolha recaia (ainda mais do que seria normal)  nos momentos com uma mensagem introspectiva mais profunda. Aqui surgem  os momentos onde a &#8220;locomotiva&#8221; avança a uma velocidade mais moderada,  quiçá pelo espinhoso caminho a percorrer&#8230;</p>
<p>O ambiente ritualístico de <em>Engodo</em> oferece-se como primeiro e perfeito exemplo de dolorosas viagens. O  ambiente criado pelos teclados e guitarra é tenso e assombroso, para que  a voz assuma o seu papel de expurgadora de demónios, ora quotidianos  ora mais filosóficos, sempre de forma bem particular:</p>
<p><em>Rimo a constituição íntima das coisas<br />
Que se me deparam lacrimosamente<br />
Adormecido de todas as estranhezas<br />
Que se me afligem ao extraviar-se</p>
<p>Mas vendi-me<br />
Num largo gesto de simpatia<br />
Que me custou a morada</p>
<p>Inexoravelmente calmo, seco a garganta<br />
Sanhudo, bebo da mentira alheia<br />
Indiferente, classifico-a raiz dos enganos<br />
E exercito-me ao recitá-la</em></p>
<p>De forma arrastada e pesada surge a faixa final, <em>Prótese</em>. Para além de alguns dos riffs mais fortes do álbum, a faixa destaca-se pela sua divisão entre o <strong>Spoken Word</strong> e o som mais &#8220;tradicional&#8221; da banda. Qualquer uma das &#8220;partes&#8221; é  intensa à sua forma: uma pelo natural elemento ruidoso e outra pela voz  sussurrada de <strong>Sidónio</strong> declamando:</p>
<p><em>Vagueio pelo trópico de câncer com uma ogiva ao peito<br />
mas consigo ver tudo que deixei para trás</p>
<p>Sinto  a minha a gorda agonia a tolher-me o passo sem vestígios de pudor só de  pensar no tempo que perdi&#8230; o destino assim o quis&#8230;!<br />
Penso em ti sete vezes por segundo<br />
Arrasto-te  comigo para todo o sempre. És  a besta que me persegue, a minha  deficiência adquirida. Partiste-me o que tinha de mais precioso.<br />
A minha alma mudou de envólucro.<br />
Tarde demais para voltar atrás.</p>
<p>Apodreço sem vida&#8230; mas tu&#8230; tu ainda ficas!</em></p>
<p>Resta apenas uma coisa por dizer. A única que se necessária fosse conseguiria definir nesta besta erguida por <strong>Bizarra Locomotiva</strong>.  Não por escassez de substância de todo o álbum mas pelo que representa  enquanto paradigma do que é que a banda consegue fazer, transformando-se  através da overdose daquilo que já tinha de melhor. No monumento de  intensidade, potência e, à sua tremenda maneira, beleza que é <em>Ergástulo</em> o <strong>Álbum Negro</strong> tem o seu momento sublime. <strong>Bizarra Locomotiva</strong> tem um dos seus clássicos definitivos num registo lento, doloroso e simplesmente arrepiante:</p>
<p><em>Canso-me perplexo<br />
da ode triunfal<br />
apreciava a dor da luz<br />
dissecando a graça suprema<br />
orgulho a salvo, prostro-me<br />
perante o teu plácido legado<br />
o meu pensamento processa-se<br />
silenciosamente&#8230;</p>
<p>Basta! Sou estrume! Esta é a minha certeza<br />
fertilizante orgânico<br />
do mal que tudo corrompe</p>
<p>Untando-te a vontade<br />
com ruidosas tonturas<br />
a minha omnívora alma<br />
devora-te legando amargas costuras<br />
Neste ergástulo de ser quem sou, envelhecido, num refluxo de culpa<br />
acaricio-te o contorno dos olhos<br />
e cerro os meus<br />
deixando-te moribunda.</p>
<p>Basta! Sou estrume! esta é a minha certeza<br />
fertilizante orgânico<br />
do mal que tudo corrompe</em></p>
<p>O <strong>Álbum Negro</strong>.  Foi o momento de renegar quase tudo. Renegar tudo menos a capacidade  reinventiva. O resultado é uma vertiginosa viagem por lugares escuros e  desagradáveis; onde o desconforto domina. Seja pelo sítio para onde se é  transportado pela <strong>Bizarra Locomotiva</strong> ou pela simples visão do que essa viagem representa. Seja qual for a situação, o <strong>Álbum Negro</strong> para além de soar a tal, estabelece-se mesmo como mais um momento essencial na carreira da banda.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Conclusão</strong></div>
<p>No meio de trabalhos tão brilhantes como o homónimo, <strong>Bestiário</strong> ou <strong>Ódio</strong>, a monocromática proposta do <strong>Álbum Negro</strong> segue precisamente a característica principal do brilhantismo do seu  antecessor: contrastar para se impor. É isso mesmo que o trabalho faz na  discografia de <strong>BL</strong>. Não aperfeiçoa (no sentido de continuidade,  entenda-se) o que foi feito no passado e lança-se sim em caminhos  escuros (duplo sentido no termo, claro). É porventura risco maior, mas  também por isso o resultado é mais estrondoso.</p>
<p>Depois da surpreendente (tendo em conta os percalços vividos pela banda nos tempos entre <strong>Homem Máquina</strong> e o trabalho de 2004) maturidade de <strong>Ódio</strong>, os <strong>BL</strong> fortalecem-se ainda mais. Também se poderá falar de maturidade mas num  sentido distorcido (como &#8220;deliciosamente&#8221; quase tudo o é no universo  artístico de <strong>BL</strong>) onde o tempo deu lugar a mais poder, mais fúria,  mais &#8220;águas revoltas&#8221;: mais exagero no fundo. Outras comparações à  parte, no sentido mais primitivo e selvagem de romper os limites de  forma caótica o <strong>Álbum Negro</strong> cumpre perfeitamente com a ambição e atinge genialmente o objectivo.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>PhiLiz</strong><br />
<strong>Escrito originalmente em 2010.02.07</strong></div>
</div>
<br />Filed under: <a href='http://philiz.wordpress.com/category/reviews/'>Reviews</a> Tagged: <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/album-negro/'>Álbum Negro</a>, <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/bizarra-locomotiva/'>Bizarra Locomotiva</a>, <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/industrial-metal/'>Industrial Metal</a>, <a href='http://philiz.wordpress.com/tag/industrial-rock/'>Industrial Rock</a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/philiz.wordpress.com/44/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/philiz.wordpress.com/44/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=44&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Burzum &#8211; Filosofem (1996)</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Sep 2009 01:47:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>PhiLiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reviews]]></category>
		<category><![CDATA[Ambient Black Metal]]></category>
		<category><![CDATA[Burzum]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofem]]></category>

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		<description><![CDATA[Artista: Burzum Álbum: Filosofem Ano: 1996 Género: Ambient Black Metal País: Noruega Editora: Misanthropy Records Tracklist: Versão Norueguesa 01 &#8211; Burzum 02 &#8211; Jesu Død 03 &#8211; Beholding The Daughters Of The Firmament 04 &#8211; Decrepitude I 05 &#8211; Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte 06 &#8211; Decrepitude II Versão Alemã 01 &#8211; Dunkelheit 02 [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=36&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="msg_60208" style="text-align:justify;">
<div style="text-align:center;"><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img29.imageshack.us/img29/1644/92091716.jpg" border="0" alt="" width="450" height="450" /></p>
<p><strong>Artista:</strong> Burzum<br />
<strong>Álbum:</strong> Filosofem<br />
<strong>Ano:</strong> 1996<br />
<strong>Género:</strong> Ambient Black Metal<br />
<strong>País:</strong> Noruega<br />
<strong>Editora:</strong> Misanthropy Records</p>
<p><strong>Tracklist:</strong><br />
<strong>Versão Norueguesa</strong><br />
01 &#8211; Burzum<br />
02 &#8211; Jesu Død<br />
03 &#8211; Beholding The Daughters Of The Firmament<br />
04 &#8211; Decrepitude I<br />
05 &#8211; Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte<br />
06 &#8211; Decrepitude II</p>
<p><strong>Versão Alemã</strong><br />
01 &#8211; Dunkelheit<br />
02 &#8211; Jesus&#8217; Tod<br />
03 &#8211; Erblicket Die Töchter Des Firmaments<br />
04 &#8211; Gebrechlichkeit I<br />
05 &#8211; Rundgang Um Die Transzendentale Säule Der Singularität<br />
06 &#8211; Gebrechlichkeit II</p>
<p><strong>Membros:</strong><br />
Varg &#8220;Count Grishnackh&#8221; Vikernes &#8211; Todos os instrumentos e Voz</p>
<p><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img4.imageshack.us/img4/6069/88photo.jpg" border="0" alt="" width="424" height="580" /></div>
<div style="text-align:center;"><strong>Introdução</strong></div>
<p>Qualquer análise séria ao que hoje, retrospectivamente, se considera o &#8220;movimento&#8221; norueguês de <strong>Black Metal</strong> (num sentido puramente musical) tem que passar pela exaustiva compreensão do que <strong>Burzum</strong> representou endogenamente para esse mesmo &#8220;movimento&#8221; e mais tarde, para o <strong>Black Metal</strong> em geral. Desnecessária e bem menos interessante é uma retrospectiva em relação aquilo que aconteceu com o homem por detrás de <strong>Burzum</strong>:  o homicídio e restantes crimes alimentaram (e continuam a alimentar)  imaginários e espaços bem menos nobres do que a criação artística de <strong>Varg Vikernes</strong> e por muito que isso satisfaça algumas mentes, não é, seguramente, o que mais interessa na vida de <strong>Varg</strong> e sobretudo no universo que rodeia <strong>Burzum</strong>.</p>
<p>Assim, bastante para além dos mundanismos, surge a obra seminal e essencial de <strong>Burzum</strong>. Quando <strong>Filosofem</strong> foi lançado já <strong>Varg Vikernes</strong> cumpria a sua pena pelo assassínio de <strong>Euronymous</strong> assim como pelo envolvimento nos incêndios de quatro igrejas norueguesas. Nessa altura obras como <strong>Det Som Engang Var</strong> e <strong>Hvis Lyset Tar Oss</strong> já mostravam claramente (de forma mais obscura já existiam alguns indícios no EP <strong>Aske</strong> e no álbum homónimo) o caminho de <strong>Burzum</strong> no que à composição de <strong>Black Metal</strong> diz respeito. Este facto surge como notório atestar da evolução rápida da criação de <strong>Varg</strong> na medida em que apesar de terem sido lançados anos depois da sua  gravação, os últimos álbuns (no que respeita ao período em que <strong>Varg</strong> esteve em liberdade) foram gravados com menos de um ano de diferença. No caso de <strong>Filosofem</strong>, a gravação deu-se em Março de 1993 sendo que o seu lançamento só ocorreria em Janeiro de 1996, quase três anos mais tarde.</p>
<p>Apesar  de este atraso ter feito com que o lançamento do álbum (e não a sua  gravação) se situe na segunda metade da década de 90 e portanto numa  altura em que já várias bandas exploravam os caminhos trilhados pelas  bandas escandinavas (particularmente as norueguesas), o impacto de <strong>Filosofem</strong> é tremendo. Os caminhos explorados por <strong>Varg</strong> em <strong>Filosofem</strong> acentuam o que já havia sido feito com os anteriores álbuns e fundam  uma série de preceitos que hão-de influenciar de forma decisiva um sem  número se tendências dentro do <strong>Black Metal</strong>. <strong>Filosofem</strong> estabelece-se como incontornável referência, seja de forma directa como no caso completa criação e moldagem no que concerne ao <strong>Ambient Black Metal</strong>, ou de forma indirecta como acontece no que diz respeito ao <strong>Depressive Black Metal</strong> (onde a própria constituição do projecto <strong>Burzum</strong> é uma influência), passando por um sem número de outras divisões estilísticas dentro do <strong>Black Metal</strong> onde a vertente atmosférica é importante.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Review</strong></div>
<p>Se há aspecto que sempre esteve inerente à música de <strong>Burzum</strong> é o poder de expressar emoções de uma forma intimista e poderosa que  não raras vezes transforma a audição do projecto numa viagem por mundos  que, por muito distintos que sejam, têm como característica comum o  facto de se distanciarem imensamente do espaço em que a audição é feita.  Em <strong>Filosofem</strong>, <strong>Varg</strong> consegue levar este efeito até ao  extremo, o mesmo extremo que define o veículo artístico utilizado para  simultaneamente criar e percorrer a obra, ou seja, o <strong>Black Metal</strong>.</p>
<p>A par com este efeito, uma outra sensação presente na quarta obra de longa-duração de <strong>Burzum</strong> torna-se particularmente importante de destacar, tanto devido à forma  como é desenvolvido na obra, como também porque explica muito por detrás  do propósito artístico do projecto em si. <strong>Filosofem</strong> trata-se de  uma tentativa (artisticamente tremendamente bem sucedida, diga-se de  passagem) de abstracção em relação à dimensão humana da qual é, de  alguma forma, &#8220;prisioneira&#8221;. A desumanização em <strong>Filosofem</strong> não se  dá através a supressão emotiva. Dá-se antes pelo transbordo da mesma. As  referidas deambulações para fora do espaço e tempo da audição de <strong>Burzum</strong> prendem-se estreitamente com o facto de os ambientes criados por <strong>Varg</strong> serem, não só antagonistas do quotidiano habitual, mas sobretudo por  projectarem estados de espírito cuja ligação humana é reduzida ao mínimo  da inevitabilidade inerente a qualquer criação da espécie. Se em  relação ao primeiro aspecto <strong>Burzum</strong> não é exemplo único (apesar do  brilhantismo como é feito ser ímpar), já o segundo aspecto demonstra  desde logo uma faceta importante da genialidade desta criação de <strong>Varg</strong> no que concerne ao objectivo de atingir uma obra artística onde a  própria execução da mesma se torne irrelevante. Num aforismo (que não  deixa de ser irónico dado o contexto extra-musical e as inúmeras  &#8220;análises&#8221; existentes ao mesmo): a arte pela arte.</p>
<p>É partindo (conscientemente ou não pouco interessa dado o resultado apresentado) desta base que <strong>Varg</strong> opera nova transformação no universo de <strong>Burzum</strong> incrementando a presença da vertente <strong>Ambient</strong> em <strong>Burzum</strong>. Se é bem verdade que desde o início que <strong>Varg</strong> inovou no que concerne ao uso de teclados em conjunto com o <strong>Black Metal</strong> e que sobretudo em <strong>Det Som Engang Var</strong> e <strong>Hvis Lyset Tar Oss</strong>, a importância dos teclados para o efeito final destes trabalhos é imensa. Neste campo, <strong>Filosofem</strong> não é uma mudança técnica em relação ao passado do projecto, mas existe  antes um acentuar e um aprofundamento do papel ambiental. Há semelhança  dos seus antecessores, segue o caminho da exploração <strong>Ambient</strong> a par do <strong>Black Metal</strong> (a presença de faixas somente ambientais é um elo de ligação entre o  álbum aqui exposto e os dois que o antecedem), mas aqui dá-se o  aperfeiçoamento final da integração entre os dois géneros. Uma faixa  como <em>Burzum</em> (mais conhecida como <em>Dunkelheit</em>) elucida sobre esta mudança face a algo como <em>Det Som En Gang Var</em>: ambas as músicas (duas das melhores do género) possuem um uso extensivo de teclados mas ao passo em que na música do álbum <strong>Hvis Lyset Tar Oss</strong> existe uma sensação de justaposição (de notar que este facto não  oferece qualquer tipo de crítica negativa dada a mestria como é feito), a  música de abertura de <strong>Filosofem</strong> dá a ideia de continuidade e  progressão simultânea entre os riffs hipnóticos e as batidas da bateria e  o trabalho da bateria. Une-os o minimalismo de execução, mas também uma  percepção de complementaridade que remete para uma composição  simultânea (independentemente de ter sido este o processo composicional)  dos elementos mais &#8220;tradicionalmente&#8221; associados ao <strong>BM</strong> e da parte <strong>Ambient</strong>. Nada disto coloca em causa todo o brilhantismo de, por exemplo, uma faixa como <em>Det Som En Gang Var</em> (repito, uma obra-prima de <strong>Burzum</strong> e simultaneamente de todo o género). A progressão de <strong>Burzum</strong> não coloca em causa a maturidade e intencionalidade de cada uma das  obras passadas. Trata-se de uma &#8220;pintura&#8221; com diferentes secções e que  atingem invariavelmente a excelência.</p>
<p>Precisamente para o nível atingido por <strong>Burzum</strong> em <strong>Filosofem</strong> em muito contribui aquilo que será, porventura, a maior qualidade de <strong>Varg</strong> enquanto músico: uma ímpar capacidade de composição. Como referido, a mestria na fusão dos elementos mais tradicionais do <strong>Black Metal</strong> com a sonoridade ambiental é um destaque ao qual se junta a capacidade  de juntar elementos de execução simples, obtendo um efeito tão poderoso e  único. A face mais visível desta qualidade são os riffs que invadem o  trabalho que têm tanto de terrivelmente simples como de imensamente  belos e assombrosos. Qualquer uma das primeiras três músicas possui  riffs que conseguem, não obstante a sua simplicidade, transmitir todo um  conjunto de sentimentos com uma intensidade incrível. A dificuldade  está precisamente neste ponto: os extremos técnicos &#8211; seja extrema  simplicidade ou complexidade &#8211; podem anular o objectivo a que se propõe  pelo que para tal não suceder há que ter uma ideia clara de condução das  músicas para não se cair em exageros.</p>
<p>Em <strong>Filosofem</strong>, atinge-se com perfeição o ponto de equilíbrio. A título de exemplo, a primeira faixa <em>Burzum</em> (<em>Dunkelheit</em>)  parece pensada ao pormenor em relação à gestão dos tempos em que a  repetição dos riffs é feita. Cada um dos elementos tem um tempo de  entrada perfeito e que provoca subtis mudanças de ambiente, impedindo  qualquer tipo de enfado: os riffs iniciais introduzem a faixa de forma  lenta e sombria, com a bateria a seguir a mesma toada até à entrada do  riff principal, ao que se segue os teclados que sublinham de forma  perfeita a melodia da guitarra. São sete minutos onde estes elementos  são conjugados de forma perfeita com a voz arrepiante de <strong>Varg</strong> e  com algumas mudanças quase imperceptíveis, mas que fazem toda a  diferença para que não haja uma repetição excessiva na faixa. No  entanto, <strong>Varg</strong> também varia na forma como faz fluir as faixas, não  se centrando simplesmente nos teclados para fazer criar momentos  interessantes. A segunda faixa, <em>Jesu Død</em> (mais conhecida pela sua versão alemã <em>Jesus&#8217; Tod</em>)  é demonstração disso mesmo através de um cortante conjunto de riffs  rápidos que é acompanhado pela igualmente furiosa bateria. Neste caso, a  própria velocidade dos riffs e cria uma dinâmica que não se torna  cansativa durante os mais de oito minutos que a faixa tem. Claro que  velocidade por si só não representa nada e <em>Jesu Død</em> é mais um enorme momento sobretudo devido ao riffs memoráveis que compõe a música.</p>
<p>Como já referido, <strong>Filosofem</strong> constitui-se como uma obra de grande dimensão graças à forma como a  simplicidade técnica se transcende em brilhantismo quando tudo está  perfeitamente encaixado. As faixas mencionadas atestam da qualidade dos  riffs neste trabalho, assim como da forma como os teclados minimalistas  sublinham uma atmosfera nostálgica e melancólica. Por outro lado,  naturalmente apenas presente na parte <strong>Black Metal</strong> do álbum, a  bateria não tem um papel tão evidente, servindo sobretudo para frisar o  tempo das músicas que acaba por variar consideravelmente nas três  primeiras faixas. A própria produção acaba por relegar para segundo  plano a bateria uma vez que se encontra bastante &#8220;enterrada&#8221; na parede  de som provocada  Ainda assim, o som algo &#8220;seco&#8221; da bateria é uma das  características notórias do álbum, seja nos momentos mais acelerados de <em>Jesu Død</em> ou quando o tempo médio de &#8211; por exemplo &#8211; <em>Beholding The Daughters Of The Firmament</em> (<em>Erblicket Die Töchter Des Firmaments</em>)  é dominante. Há semelhança do que sucede com o baixo (poucas vezes  audível durante o trabalho devido à enorme camada de distorção), a  bateria limita-se a servir da base para todo o aparato criado pelos  elementos que se destacam em <strong>Filosofem</strong>.</p>
<p>Também com uma colocação bastante &#8220;distante&#8221; na produção encontra-se a voz de <strong>Varg</strong>.  No entanto, este é um dos elementos mais reconhecíveis e importantes  para a caracterização do álbum e sobretudo para o seu estrondoso  resultado final. De notar, antes de mais nada, que a voz apresenta-se  aqui de forma bastante diferente em relação aos anteriores trabalhos de <strong>Burzum</strong>. Antes deste trabalho a voz de <strong>Varg</strong> era um gutural extremamente gritado, bastante único e original para o  início dos anos 90 e simultaneamente uma das marcas características da  abordagem singular do projecto em relação ao <strong>Black Metal</strong>. Em <strong>Filosofem</strong> ainda se conseguem discernir alguns traços da voz gutural mas  extremamente aguda que foi dos traços principais dos primeiros  trabalhos, mas a produção e a forma como a voz está encaixada no som  mudam quase por completo. Usando o pior microfone do estúdio onde o  álbum foi gravado, <strong>Varg</strong> obteve um efeito completamente distorcido  e crispado que poucas semelhanças possui em relação a uma voz humana  mesmo quando comparado com as vozes torturadas dos primeiros trabalhos  ou mesmo em relação ao conceito mais alargado de gutural nos subgéneros  mais extremos do <strong>Metal</strong>. Desta forma, a voz acaba por ser uma  continuação do som difuso das guitarras, rasgando a parede sonora com um  gutural agonizante que quase parece remanescente de um som <strong>Industrial</strong>,  tal é a forma como a voz soa distorcida. O resultado final desta  abordagem é soberbo, retendo grande parte dos sentimentos dolorosos que  eram transmitidos com os guturais mais gritados dos álbuns anteriores,  ainda que a forma como tal efeito é atingido seja consideravelmente  diferente.</p>
<p>Em consonância com a emotividade dos vocais estão as  letras do álbum. Em relação ao alcance das mesmas, pode-se dizer que não  poderiam ter uma melhor presença que não num trabalho cujo título é <strong>Filosofem</strong>.  Não sendo letras complexas num sentido tradicional do termo, deambulam  por um mundo de preocupações existenciais através de relatos de um tempo  passado e de paisagens desaparecidas. A imagética naturalista é uma  constante e serve tanto de descrição simples (como na parte mais  ambiental do álbum), como de plataforma para temas que parecem corroer a  imaginação de uma mente em permanente viagem interior. A já referida  sensação de viagem dá-se em grande parte devido aos mundos criados pelas  letras do trabalho mas que mais do que remeterem de forma literal para  um conjunto de imagens, se tratam de metáforas para um transporte que  ocorre sobretudo interiormente porque esta é sobretudo a travessia que  interessa ao &#8220;filósofo&#8221;. Neste campo, a primeira parte do álbum oferece a  porção mais conseguida de <strong>Filosofem</strong> uma vez que a parte exclusivamente <strong>Ambient</strong> tem uma abordagem mais directa e menos profunda no campo lírico.</p>
<p>Assim, a primeira faixa auto-intitulada <em>Burzum</em> (mas &#8220;popularizada&#8221; como <em>Dunkelheit</em>)  possui um misto de imagética naturalista e um certo tom pagão que se  acaba por surgir de forma mais clara na segunda parte do álbum. Não  sendo a temática mais interessante do álbum, acabam por resultar muito  bem em toda a faixa, nomeadamente no momento quase falado que acaba por  surgir na última metade da faixa. Segue-se <em>Jesu Død</em> (de novo mais conhecida pela versão alemã: <em>Jesus&#8217; Tod</em>)  com uma descrição negra da figura de Cristo. &#8220;A morte de Jesus&#8221;  representa o nazareno de forma pouco usual, não como uma figura de paz e  tranquilidade mas como uma figura negra e sombria. Mais do que um  ataque gratuito à pessoa de Cristo, trata-se de uma retratação que se  foca no lado oculto e sobretudo humano de alguém cujo sofrimento e dor  se sobrepõe claramente à sua tradicional &#8220;reputação&#8221;, ainda que tal seja  escondido.<br />
No entanto, e sem qualquer desprimor pelas mencionadas letras, o melhor momento neste campo em <strong>Filosofem</strong> (e em toda a discografia do projecto) encontra-se na terceira faixa, <em>Beholding The Daughters Of The Firmament</em> (<em>Erblicket Die Töchter Des Firmaments</em>).  Uma interrogação existencial invadida de melancolia e solidão, de uma  alma em permanente convulsão interrogativa provocada pela noção de  desconhecimento e vazio face à sua existência. Nada mais perfeito para  sintetizar a força emotiva de <strong>Filosofem</strong> do que a &#8220;magnum opus&#8221; lírica de <strong>Varg</strong>:</p>
<p><em>I wonder how winter will be<br />
With a spring that I shall never see<br />
I wonder how night will be<br />
With a day that I shall never see<br />
I wonder how life will be<br />
With a light I shall never see<br />
I wonder how life will be<br />
With a pain that lasts eternally<br />
In every night there&#8217;s a different black<br />
In every night I wish that I was back<br />
To the time when I rode<br />
Through the forests of old<br />
In every winter there&#8217;s a different cold<br />
In every winter I feel so old<br />
So very old as the night<br />
So very old as the dreadful cold<br />
I wonder how life will be<br />
With a death that I shall never see<br />
I wonder why life must be<br />
A life that lasts eternally<br />
I wonder how life will be<br />
With a death that I shall never see<br />
I wonder why life must be<br />
A life that lasts eternally</em></p>
<p>Por motivos naturais, as três primeiras faixas acabam por ser as que merecem uma atenção maior quando <strong>Filosofem</strong> é abordado de uma forma mais compartimentada e focando-se essencialmente na sua vertente ligada ao <strong>Black Metal</strong>. Compreende-se este aspecto na medida em que as faixas seguem a linha do <strong>BM</strong> que <strong>Varg</strong> aprimorou e seguem uma linha que acaba por ser mais natural dentro do género. No entanto, há que mencionar que sem <em>Decrepitude</em> e <em>Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte</em>, <strong>Filosofem</strong> não atingiria patamares e ambientes que combinam perfeitamente com aqueles presentes nas primeiras faixas. <em>Decrepitude</em> será, talvez, a mais perfeita integração da vertente <strong>Ambient</strong> com o <strong>Black Metal</strong> o que torna a sua primeira versão (quarta faixa) numa passagem perfeita  para a longa parte ambiental e a sua versão instrumental (última faixa  do álbum) num fecho condizente para um álbum que consegue unir de forma  sistemática as duas sonoridades dominantes (embora as referidas faixas  tenham um sentimento mais pertencente à primeira esfera ambiental do que  ao <strong>BM</strong>). No meio das duas, surge a monstruosa <em>Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte</em>,  a única peça puramente ambiental do trabalho. Percorrida por uma  melodia simples e hipnótica, a música vai flutuando longamente pelas  suaves notas sintetizadas que percorrem a música por mais de vinte e  cinco minutos (um quarto do álbum, aproximadamente). Ainda que possa não  fazer sentido de um ponto de vista individual, a quinta faixa fornece a  viagem de relaxamento e descompressão perfeita quando se ouve o álbum  como um todo, sobretudo devido à forma como contrasta com a emotividade  extrema que é presenciada na primeira metade do álbum.</p>
<p>Se é verdade que a compreensão de <strong>Filosofem</strong> enquanto obra passa obrigatoriamente pela segunda metade do álbum, é  inegável que os três clássicos que iniciam o trabalho valem muito por si  próprios. A hipnótica <em>Burzum</em> (a primeira faixa escrita por <strong>Varg</strong> em Agosto de 1991 ainda com a designação de <strong>Uruk-Hai</strong>)  é um dos momentos incontornáveis em todo o movimento norueguês, pelas  razões já largamente mencionadas e pela forma como simboliza todo o  conceito de <strong>Ambient Black Metal</strong>. Da mesma forma, <em>Jesu Død</em> lembra algum do trabalho mais rápido de <strong>Varg</strong> e constitui-se como outra obra-prima, ainda que de uma forma distinta  das outras duas faixas mais lentas, o que prova a capacidade de <strong>Varg</strong> de compor temas de enorme qualidade, com considerável variedade entre  si. Depois destes dois monumentos, a terceira faixa é uma &#8220;overdose&#8221;  emocional de sentimentos melancólicos e profundos. Devido a estas  características, <em>Beholding The Daughters Of The Firmament</em> acaba por ter óbvias influências em vertentes como o <strong>Depressive Black Metal</strong> sendo que a sua influência só é ultrapassada em matéria de importância  pelo facto de ser o momento alto num álbum que nunca sai de um patamar  de excelência.</p>
<p>Um paradoxo em forma de obra de arte, onde a  simplicidade quase inocente dos meios contrasta largamente com tudo  aquilo que é atingido pela experiência que vai, obviamente, muito além  da sua execução per se. As emoções atingidas e os &#8220;lugares&#8221; são um  reflexo de um álbum que &#8220;filosofa&#8221; através da obra musical por temas  cuja complexidade e profundidade retractam uma jornada interior que se  processa permanentemente.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Conclusão</strong></div>
<p><strong>Filosofem</strong> trata-se de um trabalho visionário e único que acaba por entrar na  categoria restrita de obras claramente à frente do seu tempo. No  entanto, a sua imortalidade atesta-se pelo facto de não ser mera  influência cronológica, mas sim por possuir uma qualidade que o destaca  dentro do subgénero de <strong>Black Metal</strong> que acabou por influenciar. Não é só o facto de surgir antes de toda a gente no campo do <strong>Ambient Black Metal</strong>:  trata-se de ser uma referência no mesmo porque possui um pioneirismo  suportado por uma qualidade composicional que não é atingida por muitos  trabalhos.</p>
<p>Há semelhança do que acontecera no passado com os primeiros lançamentos de <strong>Burzum</strong>, a criação de <strong>Varg</strong> lançada em 1996 constitui-se como mais uma demonstração de excelência de <strong>Burzum</strong>. Não como um isolado momento de grandeza, mas como mais uma prova sistemática de como <strong>Burzum</strong> se constitui como banda seminal do <strong>Black Metal</strong> moderno em várias das suas vertentes, mantendo-se ao mesmo tempo actual  e não valendo apenas pela ideia &#8220;curiosa&#8221; de clássico&#8230; e sobretudo  fazendo-o através de uma série de lançamentos onde é muito complicado  encontrar momentos abaixo do patamar de grandiosidade.</p>
<p>Acima de tudo uma obra total que usa o <strong>Black Metal</strong> como instrumento para deixar fluir uma experiência que transforma a  audição numa das melhores formas de visitar caminhos onde o sentimento  niilista impera, não de forma puramente destrutiva mas numa perspectiva  de constante indagação perante tão funesta existência.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>PhiLiz</strong><br />
<strong>Escrito originalmente em 2009.09.15</strong></div>
</div>
<br />Posted in Reviews Tagged: Ambient Black Metal, Burzum, Filosofem <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/philiz.wordpress.com/36/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/philiz.wordpress.com/36/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=36&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Type O Negative &#8211; October Rust (1996)</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Feb 2009 01:42:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>PhiLiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reviews]]></category>
		<category><![CDATA[Gothic Metal]]></category>
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		<category><![CDATA[Type O Negative]]></category>

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		<description><![CDATA[Artista: Type O Negative Álbum: October Rust Ano: 1996 Género: Gothic Metal País: EUA Editora: Roadrunner Records Tracklist: 01 &#8211; Bad Ground 02 &#8211; Intro (Untitled) 03 &#8211; Love You To Death 04 &#8211; Be My Druidess 05 &#8211; Green Man 06 &#8211; Red Water (Christmas Mourning) 07 &#8211; My Girlfriend&#8217;s Girlfriend 08 &#8211; Die [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=34&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="msg_50749" style="text-align:justify;">
<div style="text-align:center;"><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img156.imageshack.us/img156/1382/go6pstdnikwbmemgofdvhfbet6.jpg" border="0" alt="" width="450" height="450" /></p>
<p><strong>Artista:</strong> Type O Negative<br />
<strong>Álbum:</strong> October Rust<br />
<strong>Ano:</strong> 1996<br />
<strong>Género:</strong> Gothic Metal<br />
<strong>País:</strong> EUA<br />
<strong>Editora:</strong> Roadrunner Records</p>
<p><strong>Tracklist:</strong><br />
01 &#8211; Bad Ground<br />
02 &#8211; Intro (Untitled)<br />
03 &#8211; Love You To Death<br />
04 &#8211; Be My Druidess<br />
05 &#8211; Green Man<br />
06 &#8211; Red Water (Christmas Mourning)<br />
07 &#8211; My Girlfriend&#8217;s Girlfriend<br />
08 &#8211; Die With Me<br />
09 &#8211; Burnt Flowers Fallen<br />
10 &#8211; In Praise Of Bacchus<br />
11 &#8211; Cinnamon Girl<br />
12  &#8211; The Glorious Liberation Of The People&#8217;s Technocratic Republic Of  Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa<br />
13 &#8211; Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]<br />
14 &#8211; Haunted<br />
15 &#8211; Outro (Untitled)</p>
<p><strong>Membros:</strong><br />
Johnny Kelly – Bateria*<br />
Josh Silver – Teclado<br />
Kenny Hickey – Guitarra<br />
Peter &#8220;Peter Steele&#8221; Ratajczyk – Baixo, Voz</p>
<p>*Nota: Apesar de creditado no trabalho, toda a bateria do álbum foi programada.</p>
<p><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://typeonegative.net/gallery/albums/userpics/10001/1tonoctober.jpg" border="0" alt="" width="450" height="528" /></div>
<div style="text-align:center;"><strong>Introdução</strong></div>
<p>A unicidade que caracteriza e define <strong>Type O Negative</strong> (seja no âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do  universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das  inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a  humorística). Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da  situação&#8230; e quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da  banda (e em especial do gigante <strong>Peter Ratajczyk</strong>, mundialmente conhecido como <strong>Peter Steele</strong>)  permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos (quase  sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda de  Brooklyn.<br />
A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só) doses  industriais de humor negro, referências em relação a algumas polémicas  que os envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante incisiva) e  pela corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia e o sarcasmo  são peças fundamentais no repertório da banda (sejam em letras ou  noutro tipo de contactos com o público) e como tal a falta de cuidado  (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na interpretação de  alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na própria atitude por  detrás da banda) faz com que surjam muitas situações hilariantes dada a  falta de &#8220;perspicácia&#8221; de alguns &#8220;intérpretes&#8221; do universo de <strong>TON</strong>&#8230; claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.</p>
<p>Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos de <strong>Type O Negative</strong> e estende-se, no caso de <strong>Steele</strong>, até a <strong>Carnivore</strong> (banda de <strong>Thrash Metal</strong>/<strong>Crossover</strong> em que o vocalista/baixista esteve antes de <strong>Type O Negative</strong>). O uso de léxico associado a ideologias nazis na faixa <em>Der Untermensch</em> de <strong>Slow, Deep And Hard</strong> (ainda que de forma figurada uma vez que a letra denota uma visão  geralmente partilhada pela direita conservadora americana no que  concerne ao &#8220;Welfare State&#8221; e não se refere ao ideal racial),  declarações incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada),  acusações de machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de  uma namorada de <strong>Peter Steele</strong> de forma bastante agressiva &#8211; ainda  que humorística &#8211; levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios  que vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o  segundo álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou  efeitos para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que  existem alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como  &#8220;You suck! You suck!&#8221; propositadamente adicionados&#8230; para efeitos  burlescos, claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a  imagem extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista, <strong>Peter Steele</strong>&#8230; dai o nome do álbum: <strong>The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton Beach)</strong>.</p>
<p>Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal <strong>Bloody Kisses</strong> que lança definitivamente <strong>TON</strong> para o mainstream. O sucesso de temas como <em>Black No. 1 (Little Miss Scare-All)</em> (satírica perfeita a vários estereótipos da cultura gótica) e <em>Christian Woman</em> (a presumível história de uma freira com um peculiar tipo de &#8220;desejos&#8221;) levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo <strong>Metal</strong>)  e deu à Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina.  Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da  banda: <em>Kill All The White People</em> e <em>We Hate Everyone</em> eram caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram acusados de serem racistas.</p>
<p><strong>Bloody Kisses</strong>,  no entanto, foi importante &#8211; acima de qualquer outra coisa que possa  surgir &#8211; por ter representado uma demarcação sonora evidente do passado  da banda. O primeiro trabalho de estúdio de <strong>TON</strong> já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de <strong>Carnivore</strong> (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de <strong>Carnivore</strong>) com mais inclusões nos terrenos do <strong>Doom</strong> (embora, de novo, <strong>Carnivore</strong> também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993 que surgiu o som característico do <strong>Gothic Metal</strong> de <strong>Type O Negative</strong>, o que representou um avanço considerável no género. Tirando a mencionadas <em>Kill All The White People</em> e <em>We Hate Everyone</em> (que são tendencialmente mais viradas para o <strong>Thrash</strong> e <strong>Punk</strong>), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em questão, <strong>October Rust</strong>.<br />
Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação ao <strong>Gothic Metal</strong>, o terceiro álbum de originais (não contando a paródia de <strong>The Origin Of The Feces&#8230;</strong>) representa o paradigma do <strong>Gothic Metal</strong> moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o  tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja  fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de <strong>Brooklyn</strong>.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Review</strong></div>
<p>Numa visão periférica, <strong>October Rust</strong> apresenta-se como um perfeito e modelar álbum dentro do que é o <strong>Gothic Metal</strong>. O referido género &#8220;sofre&#8221; uma influência enorme de <strong>TON</strong>,  seja a nível directo (para diversas bandas que seguiram o paradigma  criado), seja na criação de uma série de características que ou não  existiam anteriormente (e aqui podemos definir <strong>Bloody Kisses</strong> como o início do som &#8220;típico&#8221; de <strong>Type O Negative</strong>, pelo menos no que ao <strong>Gothic Metal</strong> diz respeito) ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de <strong>Type O Negative</strong> lhes deu.<br />
No  entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género  específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi  dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às  inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos e  ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum  anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais  lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao <strong>Doom Metal</strong> e ao contrário quando existem momentos mais virados para o <strong>Gothic Rock</strong> nas músicas mais acessíveis como o clássico <em>My Girlfriend&#8217;s Girlfriend</em>);  em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é bastante única  e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o próprio género  em que a banda mais se insere. Já para não falar na qualidade  intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de <strong>Goth Metal</strong>,  não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é valorizado  puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda pioneira no  mencionado género.</p>
<p>Percebe-se logo aos primeiros segundos do  álbum (literalmente) que a banda tem uma forma de estar (na música em  geral) bastante própria e &#8220;característica&#8221;, nomeadamente no que ao humor  diz respeito: a primeira faixa (<em>Bad Ground</em>) são quase quarenta  segundos de ruído que dá a sensação do CD estar riscado o que fez com  que algumas pessoas tentassem devolver o CD sem perceber que era suposto  ser assim devido à partida da banda&#8230; É de pensar que a seguir a este  momento a banda iria começar a levar as coisas mais &#8220;a sério&#8221;, no  entanto essa assumpção logo se mostra errada já que na segunda faixa  (que não tem título) temos a banda a gozar com a partida anterior, a  apresentar os membros (<strong>Peter</strong>, <strong>Johnny</strong>, <strong>Kenny</strong> e <strong>Josh</strong>)  e depois a agradecerem o facto de o ouvinte ter comprado o álbum. Na  mesma linha, a última faixa (também sem título) tem o vocalista/baixista  <strong>Peter Steele</strong> a desejar que a audição não tenha sido demasiado desapontante (&#8220;I hope it wasn&#8217;t too disappointing&#8221;)&#8230;<br />
O  resto do álbum é mais &#8220;limpo&#8221; destes momentos (entenda-se que isto não  se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem  que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda,  &#8220;People&#8217;s Technocratic Republic Of Vinnland&#8221;, uma área imaginária  algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland, nome  dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de onde a  banda clama ser e cujo presidente é&#8230; <strong>Peter Steele</strong>. A faixa com o pomposo nome de <em>The  Glorious Liberation Of The People&#8217;s Technocratic Republic Of Vinnland  By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa</em> é pouco mais de um minuto a retratar a &#8220;libertação&#8221; dessa república imaginária com sons bélicos em forma de marcha militar.</p>
<p>Contundo,  não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento leviano. Bem  pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade que cobrem  estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia, sendo que este  último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo dominante do  trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração que invadem o  Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de espírito é  responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de <strong>Josh Silver</strong> que são uma das principais linhas condutoras de todo o trabalho, com um  som bastante distinto e equilibrado entre os vários ambientes criados  pelo teclado. <strong>Silver</strong> varia entre uma série de técnicas que não só  conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que se está na  presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas dentro do  género&#8230; e não me refiro apenas ao <strong>Gothic Metal</strong> em particular.<br />
Alguns dos sons mais reconhecíveis de <strong>October Rust</strong> são as introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do trabalho de sintetizadores que contém) como <em>My Girlfriend&#8217;s Girlfriend</em> ou a tremenda balada <em>Love You To Death</em>,  ambas com um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que  têm, seja pela predominância que têm na música. No caso de <em>My Girlfriend&#8217;s Girlfriend</em> (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o vocalista/baixista <strong>Peter Steele</strong> se vê envolvido), são os teclados muito ao estilo da segunda do <strong>Gothic Rock</strong> que dão à música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais conhecidas músicas de <strong>TON</strong>.<br />
A  par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos  teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa mais  próxima do <strong>Doom</strong> (como acontece na épica <em>Haunted</em>) o que incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida <em>Haunted</em> (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de <em>Be My Druidess</em> é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista <em>Red Water (Christmas Mourning)</em>.</p>
<p>Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a longo prazo se deve à mestria de <strong>Silver</strong> mesmo nos momentos em que os teclados não são predominantes ou nem  sequer aparecem em pano de fundo. Existem subtis incursões dos teclados  em momentos chave do álbum que enfatizam determinado som (muitas vezes  até outros elementos como a guitarra ou a voz de <strong>Steele</strong>) e que são instrumentais para o sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto, <strong>Josh Silver</strong> também foi o responsável pela programação da bateria (bem como co-produziu o álbum com <strong>Peter Steele</strong>) que, ao contrário do que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista <strong>Johnny Kelly</strong>,  foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto  não há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é  programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de  brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um elemento  que não grande importância no álbum (provavelmente de forma propositada  devido ao que foi referido).</p>
<p>Ainda no campo da produção é de  destacar a forma como todo o álbum está bem construído no que diz  respeito ao balanceamento do binómio peso/melodia. Apesar de os teclados  serem de uma clara importância (e a forma como são usados dão um  aspecto mais melodioso e calmo a todo o álbum), o peso das guitarras e  do baixo é sempre considerável. Além de tudo soar de forma cristalina  (outra coisa não seria de esperar e exigir), tudo tem o seu espaço e  tempo para surgir dentro do som, o que é muito positivo dado que  sublinha uma das principais qualidades da banda, isto é, a sua qualidade  na composição das músicas, nomeadamente nas mais longas como a minha  preferida <em>Die With Me</em> onde há uma exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.<br />
A produção também mantém o som característico de <strong>TON</strong> &#8211; e que de alguma forma foi cravado definitivamente em <strong>Bloody Kisses</strong> &#8211; embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho.  Este aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a guitarra  actua. <strong>Kenny</strong> continua a desempenhar um papel fundamental no  álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem algumas variações que  não eram tão evidentes (ou não existiam de todo) no álbum que precedeu <strong>October Rust</strong>.<br />
A distorção de guitarra típica de <strong>Type O Negative</strong> (e que influenciou incontáveis bandas&#8230;) está presente mas acaba por  ser ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da distorção  ser mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que não  acontece assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas também não  são muito pesadas (embora esta constatação só sirva em análise com os  álbuns passados da banda, uma vez que é um álbum bastante pesado para o  que é normal dentro do <strong>Gothic Metal</strong>) e daí esta pequena atenuante no som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que <strong>Kenny</strong> não esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o  dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente  poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em  faixas como <em>Love You To Death</em> ou <em>Die With Me</em> e por outro lado soar obscura e pesada em momentos como <em>Red Water (Christmas Mourning)</em> ou <em>Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]</em>. Da mesma forma, músicas como <em>My Girlfriend&#8217;s Girlfriend</em> ou <em>Cinnamon Girl</em> (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de <strong>Type O Negative</strong>), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos dos dedos de <strong>Kenny</strong>.</p>
<p>O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que <strong>Peter Steele</strong>. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um enorme destaque em <strong>October Rust</strong>. Falando primeiro no seu desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda performance de <strong>Steele</strong>, que ajuda em muito a definir o som profundo e grandioso do álbum. <strong>Steele</strong> toca com bastante força e energia o que lhe dá um estilo único de  execução, seja em que prima musical esteja inserido (o seu trabalho com <strong>Carnivore</strong> é exemplo desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um elemento com bastante importância no som de <strong>TON</strong> (e na própria caracterização do mesmo), dá para perceber que <strong>Steele</strong> é bastante mais do que a face de <strong>Type O Negative</strong>. É igualmente notável a forma como <strong>Steele</strong> vai variando o trabalho e imprimindo diferentes tons e texturas nas  músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se por um lado temos  belas melodias como na balada <em>Green Man</em>, por outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em <em>Burnt Flowers Fallen</em> em que na maior parte do tempo o som é mais acelerado.<br />
Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um momento como <em>Black Nº1&#8230;</em>), o distinto som do baixo de <strong>Peter Steele</strong> é um bom resumo do que <strong>October Rust</strong> representa no cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um  baixo com esta importância dentro do género&#8230; e aqui refiro-me ao  género alargado de <strong>TON</strong>) e imponente nos seus melhores momentos.</p>
<p>Falando  em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam melhor que  imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível, claro) de <strong>Steele</strong> no álbum. O álbum é invariavelmente marcado pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de <strong>TON</strong>.  Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação  para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de <strong>Steele</strong> e  isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o  resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão  das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados  em que a voz de <strong>Steele</strong> ainda se consegue encaixar de forma perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada <em>Cinnamon Girl</em>). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a performance teatral de <strong>Steele</strong> vai variando entre os graves pronunciados e autênticos uivos que  acentuam o lado mais negro de algumas das músicas (e que acaba por ser o  sentimento mais predominante do álbum). A excelente balada <em>Love You To Death</em> tem simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns  dos melhores momentos do timbre mais &#8220;vampírico&#8221; (que a pronúncia  característica do vocalista também acentua) de <strong>Steele</strong>. Momentos memoráveis como os que surgem no meio de <em>Die With Me</em> não parecem atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista que não <strong>Peter Steele</strong>.</p>
<p>Tão importante quanto a qualidade vocal de <strong>Steele</strong> é a qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste  aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos.  As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e&#8230;  erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de  Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente  literais mas acabam por ser a prova de como <strong>Steele</strong> consegue  atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor  (negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de <em>Be My Druidess</em> mostram bem o contraste entre a solenidade da música (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante <strong>Doom</strong> e tenebrosa eis que surge:</p>
<p><em>I&#8217;ll do anything<br />
To make you cum&#8230;</em></p>
<p>No  entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos  elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à  figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro  trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em <strong>October Rust</strong>. Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas sobretudo pelas letras) como <em>Love You To Death</em> ou <em>Die With Me</em> mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a grande fonte de inspiração de <strong>Steele</strong> para a componente lírica do trabalho visto que, das mais variadas  formas (mais sérias ou mais humorísticas), a temática vai sempre  surgindo e devido às desventuras de <strong>Steele</strong> com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à ex-namorada <strong>Elizabeth</strong> que também surge no vídeo de <em>Love You To Death</em>) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento melancólico que percorre todo o álbum.<br />
É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como <em>Red Water (Christmas Mourning)</em> que descreve o sentimento de perder um ente querido. <strong>Steele</strong> aborda a questão de forma quase &#8220;infantil&#8221;, mas de forma brutalmente real e quotidiana:</p>
<p><em>My tables been set for but seven,<br />
just last year I dined with eleven.</em></p>
<p>Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve ponta de humor, surge a letra existencialista de <em>Green Man</em> (o nome é referência directa à cor dos uniformes usados por <strong>Peter Steele</strong> quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por  resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas  pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do  álbum:</p>
<p><em>Sol in prime sweet summertime,<br />
Cast shadows of doubt on my face.</p>
<p>A midday sun, its caustic hues,<br />
Refracting within the still lake.</em></p>
<p>Sendo  um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que não  equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral maior  do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se  complicado destacar algum momento. Porventura músicas como <em>Love You To Death</em>, <em>Green Man</em> e <em>Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia)</em>, pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como alguns dos temas mais representativos da majestosidade de <strong>October Rust</strong>, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como um todo. Mesmo uma referência à arrepiante <em>Die With Me</em> (que pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se  não enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge&#8230;</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Conclusão</strong></div>
<p>Em <strong>October Rust</strong> as influências externas foram bastante mais deixadas de lado (pelo  menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais homogénea. Não  querendo com isto dizer que a diversidade vincada que pautava os  trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo contrário), a  direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final sem o tornar  excessivamente formulado ou previsível.</p>
<p><strong>October Rust</strong> surge, ironicamente, como um momento de definição para <strong>Type O Negative</strong>.  Ironicamente porque sendo uma obra de retracto emocional de um conceito  específico, abrange sensibilidades que não costumam estar associadas a  momentos de segurança (mesmo para a definição do som de uma banda). É  talvez este sentimento de vulnerabilidade que percorre a obra em tons de  melancolia que a tornam &#8211; juntamente com a enorme qualidade de execução  &#8211; tão apelativa e essencial (um clássico pode-se até dizer, alargando o  sentido do termo) dentro do estilo em que se insere.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>PhiLiz</strong><br />
<strong>Escrito originalmente em 2009.02.05</strong></div>
</div>
<br />Posted in Reviews Tagged: Gothic Metal, October Rust, Type O Negative <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/philiz.wordpress.com/34/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/philiz.wordpress.com/34/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=34&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Samael &#8211; Ceremony Of Opposites (1994)</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Dec 2008 01:40:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>PhiLiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reviews]]></category>
		<category><![CDATA[Black Metal]]></category>
		<category><![CDATA[Ceremony Of Opposites]]></category>
		<category><![CDATA[Samael]]></category>

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		<description><![CDATA[Artista: Samael Álbum: Ceremony Of Opposites Ano: 1994 Género: Black Metal País: Suiça Editora: Century Media Tracklist: 01 &#8211; Black Trip 02 &#8211; Celebration Of The Fourth 03 &#8211; Son Of Earth 04 &#8211; &#8216;Till We Meet Again 05 &#8211; Mask Of The Red Death 06 &#8211; Baphomet&#8217;s Throne 07 &#8211; Flagellation 08 &#8211; Crown [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=philiz.wordpress.com&amp;blog=10506415&amp;post=32&amp;subd=philiz&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="msg_47949" style="text-align:justify;">
<div style="text-align:center;"><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img389.imageshack.us/img389/8182/000kl7.jpg" border="0" alt="" width="378" height="376" /></p>
<p><strong>Artista:</strong> Samael<br />
<strong>Álbum:</strong> Ceremony Of Opposites<br />
<strong>Ano:</strong> 1994<br />
<strong>Género:</strong> Black Metal<br />
<strong>País:</strong> Suiça<br />
<strong>Editora:</strong> Century Media</p>
<p><strong>Tracklist:</strong><br />
01 &#8211; Black Trip<br />
02 &#8211; Celebration Of The Fourth<br />
03 &#8211; Son Of Earth<br />
04 &#8211; &#8216;Till We Meet Again<br />
05 &#8211; Mask Of The Red Death<br />
06 &#8211; Baphomet&#8217;s Throne<br />
07 &#8211; Flagellation<br />
08 &#8211; Crown<br />
09 &#8211; To Our Martyrs<br />
10 &#8211; Ceremony Of Opposites</p>
<p><strong>Membros:</strong><br />
Alexandre &#8220;Xytras&#8221; Locher &#8211; Bateria<br />
Christophe &#8220;Masmiseim&#8221; Mermod &#8211; Baixo<br />
Michael &#8220;Vorphalack&#8221; Locher &#8211; Guitarra, Voz<br />
Rodolphe H. &#8211; Teclado</p>
<p><img class="aligncenter" style="border:0 none;" src="http://img122.imageshack.us/img122/6425/000ue4.jpg" border="0" alt="" width="350" height="231" /></div>
<div style="text-align:center;"><strong>Introdução</strong></div>
<p>Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira de <strong>Samael</strong> (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de <strong>Ceremony Of Opposites</strong> (uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente verificável) e sendo a  análise apenas em relação aos primeiros tempos do conjunto suíço,  existe uma clara intenção de experimentar (esta característica  manteve-se e acentuou-se bastante nos anos que se seguiram a 1994) novas  coisas e expandir o universo musical do grupo com elementos  anteriormente não incorporados.</p>
<p>Para se perceber esta dinâmica &#8220;mutante&#8221; é preciso olhar para os dois álbuns anteriores da banda. Nada mais nada menos que <strong>Worship Him</strong> e <strong>Blood Ritual</strong> de 1991 e 1992, respectivamente. Não estamos perante dois trabalhos  vulgares. Numa altura em que uma verdadeira revolução se dava a uns bons  milhares de quilómetros do território suíço (na Noruega, claro), estes  dois trabalhos tornaram-se verdadeiros clássicos do que mais tarde se  viria a chamar Segunda Vaga de <strong>Black Metal</strong>. Expandindo o que os conterrâneos <strong>Hellhammer</strong> e <strong>Celtic Frost</strong> (entre outros, claro) haviam feito nos anos 80, os dois primeiros álbuns de <strong>Samael</strong> tornaram-se verdadeiros clássicos do <strong>Black Metal</strong> moderno. O mais surpreendente (uma vez que são álbuns habitualmente  prezados de forma mais ou menos igualitária) é que são dois trabalhos  que em si já encerram algumas diferenças: <strong>Worship Him</strong> tem  bastantes variações entre os tempos rápidos (seja nos riffs, seja na  bateria) e algumas passagens mais atmosféricas enquanto que <strong>Blood Ritual</strong> acentua a toada lenta sem nunca perder o som poderoso e ritualístico da  banda. Atendendo a este historial é possível antever mais uma mudança  em <strong>Samael</strong> ainda que sempre dentro do prisma do <strong>Black Metal</strong> (isto falando apenas o que foi feito imediatamente a seguir com <strong>Ceremony Of Opposites</strong>, entenda-se).</p>
<p>Na verdade, <strong>Ceremony Of Opposites</strong> é porventura o último trabalho da banda associado ao que se pode de alguma forma chamar <strong>Black Metal</strong> &#8220;tradicional&#8221;. Seguindo as pisadas de constante mudança sonora de outra (já mencionada) banda suíça, os seminais <strong>Celtic Frost</strong> (embora por caminhos totalmente diferentes dos seguidos pela banda de <strong>Tom G. Warrior</strong>), os <strong>Samael</strong> enveredaram, após <strong>Ceremony Of Opposites</strong>, por caminhos mais ligados ao som <strong>Industrial</strong> (direcção que de alguma forma pode ser vislumbrada neste trabalho de  1994) e maximizaram ainda mais o carácter experimental e ecléctico da  banda.<br />
Este facto (ser o último trabalho mais ligado ao <strong>BM</strong> de <strong>Samael</strong>)  não é por si só razão suficiente para uma atenção especial ao álbum  (essas serão descritas na análise ao álbum) mas do ponto de vista do  exame evolutivo de uma das bandas pioneiras da Segunda Vaga de <strong>Black Metal</strong> (ainda antes de alguns dos grandes lançamentos da cena norueguesa)  torna-se essencial compreender este trabalho da banda em toda a sua  plenitude.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Review</strong></div>
<p>Aquando de um contacto inicial com <strong>Ceremony Of Opposites</strong> há a constatação de duas ideias antagónicas: por um lado é indubitavelmente um álbum de <strong>Black Metal</strong>,  mas por outro lado estamos perante uma execução dentro do estilo &#8220;sui  generis&#8221; e que foge a muito dos &#8220;padrões instituídos&#8221; para se praticar  bom <strong>BM</strong>. Um &#8220;je ne sais quoi&#8221; de diferente em relação ao que costuma ser o som mais comum dentro do género.</p>
<p>Penso  que isto pode ser explicado por diversos factores mas em termos gerais  percebe-se uma aproximação a alguns géneros fora do <strong>Black Metal</strong> como seja o <strong>Industrial</strong>. Obviamente que isto não quer dizer que estejamos perante um trabalho de <strong>Industrial Black</strong>,  longe disso. Fazer tal observação seria incorrer num erro de observação  (ou de audição se assim for preferido) por exagero. O que se nota é a  utilização subtil de alguns elementos que lhe dão uma roupagem diferente  dentro do <strong>BM</strong> mas que não o afastam da linha condutora do género. Em momento algum se ouve algo que não seja BM em <strong>Ceremony Of Opposites</strong>.<br />
Refiro-me  sobretudo à forma como a bateria e os teclados (que muitas vezes  utilizam samples) estão misturados e produzidos ou a forma como um dos  elementos mais fortes do álbum (os riffs e todo o trabalho de guitarra  em geral) é executado, não recorrendo ao habitual tremolo picking mas  sim a riffs arrastados e não raras vezes lentos. Por último, em relação a  este aspecto do trabalho isto há que destacar também a produção que  confere um efeito maquinal e &#8220;industrializado&#8221; às músicas.<br />
Para  sintetizar o porquê deste efeito de estranheza pode-se dizer que a banda  arranjou uma maneira interessante e eficaz de integrar diferentes  influências sem no entanto por em causa a essência que, por exemplo, <strong>Worship Him</strong> e <strong>Blood Ritual</strong> encerram.</p>
<p>Referi a bateria como um dos motores da forma peculiar como o álbum se movimenta dentro do <strong>BM</strong> mas é muito mais que isso. A forma infernal como <strong>Xytras</strong> (enorme baterista) se apresenta é um dos grandes destaques do álbum. O  poder que emana da percussão do álbum é enorme e por si só digno de  registo mas o mais fantástico é a maneira como a bateria soa grandiosa e  energética mesmo sendo maioritariamente executada em tempos médios.<br />
Num dos clássicos saídos deste álbum &#8211; <em>Baphomet&#8217;s Throne</em> &#8211; a intensidade e energia que são imensas mas o tempo nunca acelera  muito. No entanto, a bateria (juntamente com os teclados) dá uma  grandiosidade e acutilância que fazem a faixa sobressair.<br />
Além de eficaz e poderoso, o trabalho de <strong>Xytras</strong> caracteriza-se pela sua complexidade e variação. Os tempos são  geralmente lentos (sobretudo se comparados com algumas propostas dentro  do <strong>Black Metal</strong>) mas existem momentos mais rápidos como nalgumas secções de <em>Flagellation</em> e no geral o trabalho é sempre bastante variado. Desde os ocasionais  (ainda que raros) blast beats, até aos tempos mais lentos (que  acompanham os riffs igualmente menos acelerados como superiormente  demonstrado em <em>&#8216;Till We Meet Again</em>) passando pelas introduções em  jeito de marcha imperial (como na faixa-título), o trabalho é  simplesmente perfeito para criar uma atmosfera quase épica mas acima de  tudo muito poderosa e&#8230; cerimonial.</p>
<p>A complementar na perfeição o  que é criado pela bateria estão os teclados. Neste departamento há uma  combinação inteligente entre o uso de teclados sombrios e as samples que  durante todo o trabalho se vão ouvindo com alguma frequência. Seja a  enfatizar a vibração misteriosa criada pela execução relativamente lenta  dos outros instrumentos ou simplesmente a adicionar novas atmosferas  aos temas, os teclados têm um papel bastante evidente e importante na  condução das músicas.<br />
Não são usados com enorme frequência (até porque um exagero ou um mau uso deste elemento pode tornar-se fatal para um álbum de <strong>BM</strong> como já foi muitas vezes provado) mas aparecem quase sempre em cada  faixa. A incursão já referida por caminhos mais virados para o <strong>Industrial</strong> tem a sua consubstanciação nos teclados e sobretudo no uso de samples. Faixas como <em>Flagellation</em> perderiam todo o seu ambiente mecanizado se os teclados estivessem  ausentes ou porventura usados doutra maneira. Da mesma forma, o uso de  samples insere subtilmente (aliás, os teclados resultam bem precisamente  porque são usados cirurgicamente) outras texturas a momentos mais  atmosféricos como é o caso da última faixa <em>Ceremony Of Opposites</em>.</p>
<p>Um  ponto comum a todo o álbum, mas que em relação ao uso dos teclados se  torna ainda mais evidente, é a forma como a composição está elaborada e  cuidada. Nada parece ser prolongado por demasiado tempo ou acabar cedo  demais. Veja-se, para exemplificar este aspecto, a quinta faixa <em>Mask Of The Red Death</em> onde o acompanhamento dos teclados aos riffs é evidente e como  inteligentemente toma conta da música antes de se tornar, de novo, numa  parte que enfatiza o trabalho de guitarra e baixo&#8230; tudo pensado e  executado ao pormenor para não parecer demasiado forçado ou enfadonho.</p>
<p>Como  não poderia deixar de ser esta última característica que descrevi  estende-se ao que é provavelmente o elemento mais importante na condução  instrumental do álbum: a guitarra de <strong>Vorphalack</strong>. Os riffs de  guitarra que dominam o álbum são variados, apresentam-se sempre bastante  originais e&#8230; têm um groove fenomenal. Apesar de não ser um termo  conotado com o <strong>Black Metal</strong> (de todo) não há outra forma de denominar aquilo que invade todo o álbum e compreende-se precisamente porque este não é um <strong>Worship Him</strong>. Ouça-se o início de <em>Black Trip</em> e percebe-se que há um groove muito próprio em todo o trabalho de  guitarra. Escusado será dizer que não é um som comparável ao que  geralmente mais está associado com o termo groove&#8230;<br />
Na realidade, o  que temos neste campo é um som muito próprio criado pelas guitarras  brutalmente distorcidas que inundam o álbum. Vamos desde as progressões  que criam uma atmosfera densa e negra até aos momentos mais melódicos  nalguns refrões (a faixa <em>Son Of Earth</em> é paradigmática deste aspecto) ou simplesmente aos riffs destruidores que acompanham a toada mais maquinal da secção rítmica.<br />
Embora os riffs sejam claramente compostos no horizonte do <strong>Black Metal</strong>, é possível reconhecer algumas influências de outras formas extremas de <strong>Metal</strong> como o <strong>Death Metal</strong> nomeadamente quando se ouvem alguns momentos mais melódicos. Não é algo  que seja muito evidente porque a produção, distorção e colocação dos  riffs é muito ligada ao <strong>BM</strong> mas o tal groove que se ouve é muitas vezes devido a estes sons mais próximos do <strong>DM</strong>.<br />
Para  completar todo este panorama há que salientar um dos aspectos que torna  este trabalho tão fluído e bem construído: o quão &#8220;catchy&#8221; é todo o  trabalho de guitarra. Para além do som de guitarra ser facilmente  relembrado, muitos dos riffs são memoráveis e resultam na perfeição.  Assim se compreende que tenham saído deste álbum muitos clássicos da  banda como <em>Baphomet&#8217;s Throne</em>, <em>Black Trip</em> ou <em>Son Of Earth</em>.</p>
<p>A  acompanhar a guitarra temos o baixo que apresenta muitas  características que se podem verificar na guitarra. A distorção confere à  execução de <strong>Masmiseim</strong> uma enorme relevância, seja a acompanhar  as guitarras nos momentos mais pesados, seja a preencher o som de forma  ainda mais intensa.<br />
No entanto, o baixo (sempre perfeitamente  audível) faz mais do que simplesmente &#8220;completar&#8221; o que vai sendo feito  pelo resto dos instrumentos como se pode notar em <em>Mask Of The Red Death</em>. Embora pontuais existem momentos em que <strong>Masmiseim</strong> se destaca mais e torna o ataque sonoro ainda mais acutilante e variado.</p>
<p>Para agregar toda esta potência temos, claro, a voz de <strong>Vorphalack</strong>. Num gutural poderoso e que dá o toque final a toda a energia do instrumental, <strong>Vorphalack</strong> espalha no álbum uma agressão genuína e acaba por se tornar num dos elementos que mais se destaca.<br />
Sempre num registo muito semelhante, a voz de <strong>Vorphalack</strong> é profunda mas mantém a rispidez que caracteriza os vocais do <strong>Black Metal</strong>.  A forma como a voz consegue ser preponderante face a um registo  instrumental tão poderoso (que requer uma voz igualmente poderosa para  resultar bem) é um mérito da produção mas também da forma como <strong>Vorphalack</strong> aborda a questão da colocação de voz. Mais do que uma vocalização  musical temos um registo quase recitado em que o vocalista vai  declamando as (excelentes) letras como se de ensinamentos se tratassem.  Isto resulta muito bem: quer do ponto de vista musical pela forma como  se conjuga com tudo resto, quer pela forma como se integra com a  idiossincrasia das próprias letras. Cria-se assim uma atmosfera que está  em consonância com o nome do álbum: uma verdadeira cerimónia.</p>
<p>Em  relação à parte lírica esta é na maior parte das vezes excelente. Digo  na maior parte das vezes e não sempre porque existem (muito poucos)  momentos que caem demasiado nos clichés ou não resultam porque a  linguagem agressiva se torna demasiado absurda. <em>Son Of Earth</em> ou <em>To Our Martyrs</em> sofrem deste mal, não obstante a primeira ser uma das melhores faixas  do álbum. Contudo, estes pequenos &#8220;acidentes&#8221; não devem ofuscar todo o  restante conteúdo lírico que é de elevada qualidade. As letras que lidam  com os temas religiosos do ponto de vista filosófico fazem-no de uma  perspectiva mais ateísta que nos álbuns anteriores (<strong>Worship Him</strong> é  auto-esclarecedor) embora ainda se verifiquem referências mais viradas  para o Satanismo (apenas na sua vertente mais teísta, ressalve-se).  Algumas temáticas como o sofrimento pessoal (aqui visto de uma forma  guerreira e não como forma de auto-comiseração) também são abordadas de  forma inteligente como se pode verificar em <em>Crown</em>: &#8220;<em>Into pain, I exist/And if my brain is numbed/The thorn in my flesh/Can overcome apathy</em>&#8220;.</p>
<p>Todos  os elementos descritos anteriormente acabam por estar em cada uma das  faixas. No entanto, é raro as &#8220;peças&#8221; estarem dispostas da mesma maneira  o que providencia uma dinâmica que permite ao álbum uma longevidade  maior sem se tornar demasiado formatado.<br />
A produção também ajuda na  forma como o álbum não se esgota: sendo (a produção) bastante polida  ajuda a ir descobrindo novos detalhes em cada faixa e torna o álbum  &#8220;agradável&#8221; (com as ressalvas em relação ao gosto de cada um pela banda e  género em questão) de ouvir ainda para mais quando este tem verdadeiros  hinos de <strong>BM</strong> como: <em>Black Trip</em>, <em>Baphomet&#8217;s Throne</em>, <em>&#8216;Till We Meet Again</em> (melhor faixa do álbum) ou a faixa-título cujos teclados finais encerram na perfeição esta &#8220;cerimónia&#8221;.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>Conclusão</strong></div>
<p>Os <strong>Samael</strong> nunca foram uma banda convencional. Mesmo nos tempos de <strong>Worship Him</strong> ou <strong>Blood Ritual</strong> os ritmos eram mais contidos e dava-se mais ênfase à atmosfera e negritude imprimidas nas faixas. Com <strong>Ceremony Of Opposites</strong> os suíços dão um passo em frente na exploração de novas texturas embora  nesta proposta de 1994 ainda tenham muito do que os fez inicialmente  destacar-se.</p>
<p><strong>Ceremony Of Opposites</strong> é um dos melhores trabalhos de <strong>BM</strong> saídos de 1994 (o melhor será provavelmente um tal de <strong>De Mysteriis Dom Sathanas</strong>), mas acima de tudo uma forte proposta de <strong>BM</strong> (a última completamente associada ao género por parte da banda) cheia  de inteligência e intencionalidade que &#8220;usa&#8221; elementos estranhos ao <strong>Black Metal</strong> para engrandecer o género.</p>
<div style="text-align:center;"><strong>PhiLiz</strong><br />
<strong>Escrito originalmente em 2008.12.09</strong></div>
</div>
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