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Inverno Eterno – Póstumo (2008)

Publicado por PhiLiz em 14-10-2010

 

Artista: Inverno Eterno
Álbum: Póstumo
Ano: 2008
Género: Depressive Black Metal
País: Portugal
Editora: Bubonic Productions

Tracklist:
01 – Prólogo
02 – À Sombra Do Passado…
03 – …Eternamente
04 – Enquanto A Morte Demora…
05 – …O Sofrimento Constante
06 – A Noite Que Perdura…
07 – …Na Memória
08 – Depois Que Tu Morreste…
09 – …O Cansaço De Viver

Nota: os membros da banda expressaram o desejo de não serem fotografados em concertos ao vivo pelo que daí se depreende a vontade da banda se manter incógnita a nível visual. Da mesma forma também se pode compreender que semelhante desejo se alarga à identidade dos membros da banda. Para respeitar esta vontade, e ao contrário do que normalmente é feito, não serão divulgadas imagens, nem os nomes dos membros que constituem a banda.

Introdução
«Cada um para seu fim,
Cada um para seu norte…
……………………………………………………………
 

— Ai que saudade da morte…»
(Mário de Sá-Carneiro, Vontade de Dormir em Dispersão)

Este pequeno excerto da autoria de uma das personalidades que mais influencia os espaços (especialmente os literários) criados por Inverno Eterno torna-se num excelente meio de resumir, aforisticamente, as pulsões mais íntimas e profundas de Póstumo. A invocação exige-se e torna-se bastante pertinente devido às inúmeras ligações (directas e indirectas) a Mário de Sá-Carneiro que inundam todo o álbum, sendo que constituem parte fundamental da compreensão de Póstumo, nomeadamente naquilo que este tem de maior e grandioso. As ligações literárias estendem-se ao primeiro Modernismo português para lá de Sá-Carneiro, nomeadamente à sua figura mais notória, Fernando Pessoa. A par de Sá-Carneiro, o heterónimo Álvaro de Campos é influência clara no primeiro trabalho de Inverno Eterno.

A ideia de revisitar musicalmente Sá-Carneiro não é comum mas também não é inédita. Por oposição, a obra de Pessoa já muitas vezes foi usada para semelhantes fins. O que acontece no álbum de estreia de Inverno Eterno é, no entanto, bastante diferente do que havia sido feito na área até este momento. Aliás, não será exagero dizer, que Póstumo possui uma abordagem que se distancia de todas as interpretações musicais de momentos literários destes dois autores, criando algo que pela radical diferença expressiva é novo e acima de tudo único. Compreender o que Póstumo tem de mais grandioso remete para a novidade de “usar” o Black Metal como “veículo” transmissor de alguns dos universos criados no trabalho de grandes autores da língua portuguesa (às duas ilustres figuras já mencionadas há que juntar Vergílio Ferreira). Não pelo pioneirismo de o fazer, mas sobretudo porque Póstumo é uma impressionante demonstração da ligação possível e lógica entre a negatividade inerente do Black Metal e autores cuja obra explorou sítios e sensações nada distantes. O ponto fundamental desta ligação tem o enunciado como base mas só se materializa devido às características específicas das referências literárias em questão, bem como da abordagem de Inverno Eterno ao género musical onde se move.

É na capacidade de tornar embrionária a ligação entre o mundo literário e o Black Metal que reside precisamente um dos grandes pontos de interesse em Póstumo e sobretudo o predicado que mais contribui para a identidade da banda. Não se está somente perante um trabalho que procura associar duas formas de expressão (a literária e a musical) por simples justaposição. Embora este “processo” de mera junção tenha resultado (por vezes brilhantemente) no passado, no álbum em questão a relação entre os dois mundos é muito mais estreita e modifica profundamente a forma como cada um deles se revela. Neste sentido pode-se dizer, em jeito de resumo, que o Black Metal aqui presente aparenta uma construção em torno da expressão escrita sendo, portanto, moldado pela mesma; ao mesmo tempo que a vertente lírica “clama” por ser integrada num contexto tão pessoal como o BM é na sua génese (nomeadamente na sua formulação aqui presente), o que resulta numa ligação onde a palavra é tão privilegiada como as habituais dimensões vocais do BM (mesmo alargando ao máximo tudo o que o mesmo pode representar).

O que emana desta correlação profunda é uma obra que se destaca pela capacidade de transmitir estados de espírito ligados à tristeza e melancolia de múltiplas formas e todas elas complementares entre si. Embora seja de somenos importância para a análise a absorção de Póstumo, é preciso dizer que estes estados de espírito que percorrem o álbum são o que podem integrar a banda dentro do espectro do Depressive Black Metal. Esta “integração” tem necessariamente que se fazer por analogia de sentimentos e ambientes resultantes dado que a nível das estruturas das músicas e mesmo na execução de cada um dos elementos, a banda mostra-se algo distante das características habituais deste subgénero do BM. Só a título de exemplo destas diferenças pode-se verificar que as músicas não atingem uma área contemplativa e serenamente melancólica através da repetição exaustiva de alguns riffs, o que encurta significativamente a duração das músicas; da mesma forma que instrumentalmente o trabalho é bastante menos minimalista do que na esmagadora maioria das propostas de Depressive Black Metal (independentemente desta abordagem resultar muito bem nalguns casos e falhar noutros), havendo bastante variedade em todos os instrumentos o que também origina um trabalho mais multi-facetado e onde sentimentos “depressivos” são abordados de diversas formas.

Acaba por ser, portanto, um enquadramento relativo no subgénero que não deixa de ser um sinal paradigmático da forma como IE consegue ser um projecto inventivo e fresco mesmo que “tocando” em ambientes de Black Metal que se tornaram recorrentes nos últimos anos. Adjectivos como depressivo, melancólico, doloroso ou lutuoso descrevem Póstumo mas sozinhos são claramente insuficientes para perceber todo um trabalho que tem na sensibilidade poética a sua maior força.

Review

São várias as dimensões visitadas por Inverno Eterno no seu primeiro lançamento. Porventura todas conectadas (latamente) pela negatividade mas ainda assim bem distintas. A uni-las definitivamente está o seu carácter póstumo; algo que, por um lado, as trespassa e, por outro, as define e permite que sejam expostas da forma como são. É o findar continuado que atravessa o álbum que lhe confere o lúgubre saudosismo, que “aviva funebremente” as emoções de Póstumo. Assim, e não apenas pelo enquadramento estético da palavra (que no caso é bastante, diga-se), o trabalho parece (em retrospectiva) não poder ser definido de outra forma, se só uma palavra pudesse ser usada. É simultaneamente descrição de obra e inscrição de lápide, uma criação desconectada do momento presente “somente” experienciada, quer pela universalidade e atemporalidade dos sentimentos dilacerados, quer pela crueza das feridas expostas no trabalho. No fundo (e usando as palavras da banda), Póstumo não é “daqui”; é “do passado, da idade do fim”.

Compreendendo este estado de espírito que paira sobre o álbum, não é difícil perceber que a expressão deste outro mundo (cuja dor será o resquício maior) se conecta com o código genético do que é o Black Metal na(s) sua(s) vertente(s) mais intimista(s). Retrospectivamente parecerá quase uma inevitabilidade, este passo que foi dado por Inverno Eterno rumo a um tipo de BM que canaliza os mesmos sentimentos melancólicos e dolorosos, como é o caso do Depressive Black Metal. Contudo, a banda foge não raras vezes a vários paradigmas do subgénero em questão, o que gera as dificuldades de enquadramento já mencionadas mas as afinidades naturais entre os quadros emocionais pintados pela banda e os que o subgénero referido produz, são inegáveis. Abrangência e êxito finais (comparativamente, claro) são considerações, por agora, de parte.

O que é de mais difícil compreensão é precisamente o que está para lá desta “naturalidade”. É, igualmente, um dos grandes pontos de interesse do álbum, seja a nível estético ou analítico (nomeadamente, neste último campo, no que concerne à “procura” de traços inovadores no trabalho). De forma mais concreta, a questão consubstancia-se na capacidade de tornar tão intensa e real a relação com a “Portugalidade”. É, claro, nas letras que esta ligação é mais notória (embora o instrumental também surja frequentemente como “devedor” desta conexão) mas há que dizer que as mesmas vão para além de estarem escritas em português. Acima de tudo, encarnam algumas das características mais fatalistas da essência portuguesa. Devido à forte incidência literária do trabalho de Inverno Eterno e à influência que autores já referidos têm na lírica do álbum, poder-se-ia assumir que os ambientes tão portugueses do mesmo se deveriam a um revisitar da “Portugalidade” como definida pelos mesmos. Esta percepção seria, no mínimo, redutora. A verdade é que Póstumo partilha com Pessoa e Camões (usados aqui a título de exemplo não exclusivo) a capacidade de definir o fado saudosista e tantas vezes trágico que marca o carácter do que é Português, nomeadamente na sua língua. É uma partilha e não uma réplica pois o trabalho apresenta-se como um lado mais negro e gritante dessa “Portugalidade”. Não é, portanto, uma abordagem que privilegie a expressão ligeira da saudade (que mais não é que a vulgarização pálida desse sentimento) mas algo que está mais próximo do verdadeiro valor expressivo desta “essência” e que é (sobretudo neste trabalho) funesto e “carregado” de desesperança.

A obra em questão vive, no entanto, bastante para além da valência puramente conceptual do trabalho. Isto é, também na abordagem “sonora” (em sentido mais estrito) é distinto e elevado. Mais do que isso, é-o a vários níveis. As opções de produção ajudam imenso a expor a diversidade aqui presente, sendo que a variedade (seja dos diversos elementos musicais, seja dos mundos emocionais que visita) é precisamente um dos pontos que mais surpreende e valoriza a experiência de Póstumo. A banda optou por uma produção que se pode, de alguma forma, designar de limpa e clara. Simultaneamente há uma sensação de “espaço” entre os diversos instrumentos e a voz, o que permite distinguir detalhes que, com uma produção mais sobreposta, não se destacariam tanto, nomeadamente os belíssimos momentos limpos da guitarra. Apesar disto, consegue existir um balanceamento hábil com uma certa crueza no som que dá azo a um ambiente especialmente carregado nas alturas em que os riffs mais intensos se juntam com os lamentos desesperados da voz. A atmosfera mantém-se assim limpa mas densa ao mesmo tempo. Não se valendo apenas da distorção e do “nevoeiro sonoro”, o álbum escapa à unidimensionalidade e apresenta ambientes mais diversos que exploram diversas “facetas” dos sentimentos negros e soturnos que cobrem o trabalho.

Contudo, é evidente que as potencialidades deixadas em aberto pelo tipo de produção nunca seriam cumpridas caso a banda não conseguisse estar à altura de “preencher” um som que privilegia tendencialmente o pormenor. Não só isto é conseguido em pleno como também surpreende a forma como elementos tendencialmente menos proeminentes num tipo de Black Metal mais introspectivo, aqui se destacam e contribuem em muito para todo o ambiente do álbum. Sem prejuízo de iguais qualidades poderem ser aplicadas aos outros intervenientes, a bateria destaca-se precisamente pelo detalhe, variedade e sobretudo no enriquecimento do som de Póstumo.
O trabalho da bateria do álbum partilha com muitos outras obras do género a simplicidade de execução, mas as semelhanças cessam quando se entra no capítulo da diversidade composicional. Em vez de enveredar por terrenos mais minimalistas e/ou de reduzida ênfase geral nas músicas (assumindo pouco mais que uma função de manutenção de ritmo), a bateria de Inverno Eterno mostra-se bastante dinâmica e multifacetada, o que permite pontuar com singularidade diversas passagens do álbum. Muito do que destaca na bateria advém da incorporação de padrões algo “estranhos” ao BM (no que concerne a este elemento específico, entenda-se), muitos deles nada distantes do universo Post-Punk (o som algo “seco” da tarola é um bom exemplo disto mesmo). Esta abordagem pouco ortodoxa da bateria torna-se especialmente interessante nos momentos mais lentos em que a bateria se revela mais criativa com padrões bem diferentes do que é habitual ouvir, mesmo em sonoridades dentro do Black Metal com tempos mais lentos. O “esoterismo” de …O Cansaço De Viver aparece como momento de destaque neste aspecto. A bateria consegue igualmente soar inventiva e peculiar em momentos ligeiramente mais acelerados, incutindo uma tensão dramática que contribui decisivamente para o ambiente do álbum (algo que não acontece com grande frequência em sonoridades do género). A contribuição específica deste factor pode ser verificada nas sublimes passagens de À Sombra Do Passado… onde os devaneios da bateria suportam de forma perfeita o crescendo de intensidade dos riffs nas secções finais do tema.

A propósito das influências exteriores ao BM no som de IE, estas não se esgotam na bateria. Também o baixo apresenta traços característicos dos mesmos ambientes Post-Punk, trazendo à memória o nome de Joy Division ou mesmo certos momentos mais hipnóticos e obscuros de Bauhaus. O resultado é bastante apelativo pela forma como não raras vezes as linhas de baixo seguem em direcções bastante diferentes dos riffs da guitarra, conferindo à música diversos pontos de condução. Continuando a linha de destaque, o baixo também assume a espaços um papel condutor geralmente reservado à guitarra (sobretudo quando esta produz alguns momentos limpos) algo que também se pode verificar nalgumas das bandas “pertencentes” às influências estilísticas mencionadas. A prova mais cabal desta “função” do baixo será certamente parte inicial da já referenciada última faixa, onde o baixo conduz grande parte da música.
O trabalho de baixo torna-se especialmente memorável pela forma como, um pouco à semelhança de todos os elementos aqui constantes, a simplicidade de processos dá origem a uma enorme heterogeneidade composicional. Este desempenho permite uma assunção de papéis bastante mais alargados do que seria de esperar mas permite igualmente fazer-se notar através de uma série de pormenores que, além de valerem pela sua própria elegância, complementam na perfeição as paisagens negras pintas pela voz e pelos riffs. Muitos deste “movimentos” do baixo são subtis e até se poderá dizer que ocorrem em pano de fundo mas torna-se especialmente enriquecedor para a absorção da obra verificar a forma como o baixo abre caminho para novas “zonas” emocionais (inevitavelmente dolorosas) quando o foco principal até são outros elementos, como acontece em A Noite Que Perdura… e … Na Memória.

A alusão a “foco principal” terá obrigatoriamente que passar pela guitarra. A par da voz, o trabalho de guitarra é o corpo emotivo de Póstumo; complementado e acrescentado com mestria pela secção rítmica. Nos riffs pungentes da guitarra reside a expurgação (neste caso instrumental) de todo um conjunto de sentimentos ligados à desolação e tristeza. Como não poderia deixar de ser, e à semelhança de tudo o resto, a guitarra oferece uma combinação de vários elementos para construir este mundo de sofrimento. Isto acontece tanto ao nível das técnicas utilizadas, como dos ambientes criados.
É de notar, ao nível da execução, que a guitarra varia bastante sendo que se podem encontrar partes limpas, diversos dedilhados (a maioria também sem distorção), riffs com variadíssimas influências e mudanças de ambiente. Além da forma como tudo isto se vai, de alguma forma, intervalando (criando já de si um acentuado dinamismo) há que perceber que os próprios riffs distorcidos não se limitam a uma só esfera de sentimentos “depressivos”. O ambiente é construído através de um trabalho que explora riffs mais lentos embebidos numa distorção que gera sensações de cortante (e constante) agonia, mas que consegue igualmente ter uma certa dose de “agressividade” (sem nunca perder a taciturnidade característica, claro). Assim, o efeito é contemplativo mas também opressor (neste último aspecto a voz também tem papel decisivo), havendo um conjunto de estados de espírito que exploram “facetas da dor” bem distintas.
É precisamente o entrecortar entre os riffs distorcidos e as passagens limpas que cria alguns dos grandes momentos do álbum. Além da enorme qualidade dos riffs do álbum, estes momentos limpos (muitos deles em forma de belíssimos dedilhados) merecem igualmente grande destaque. Algumas das passagens mais memoráveis pela sua profundidade emocional coincidem precisamente com secções onde estes dedilhados surgem em jeito introdutório e “estabelecem”, desde logo, um ambiente etéreo (ainda que dominado pela mágoa) de enorme intensidade. Depois Que Tu Morreste…, a grande opus do álbum (sem prejuízo de tudo o resto), não poderia ser exemplo mais paradigmático. Nesta música em particular podem-se encontrar passagens que, de certo modo, fazem lembrar o trabalho intermédio de Burzum (nas partes limpas) e dos dois primeiros longa-duração de Forgotten Woods (no tipo de riffs e tom da distorção), mas onde se nota simultaneamente uma identidade emotiva muito própria.

Esta identidade é precisamente aquilo que sobressai e se destaca em Póstumo quando olhado o trabalho de forma global. Tal visão advém precisamente de uma intimidade negativista que só é possível graças à forma bastante como todos os pesares surgem tão perto e tão intensamente. Uma “não representação” artística que é substituída pela evocação profunda de pesadelos que urgem de expurgação. É isto que mais particulariza Inverno Eterno; e é isto que mais se pode sentir nos vocais transcendentes que espalham por todo o álbum “angústias infindas” (expressão encontrada nas letras de A Noite Que Perdura….).
Este sufoco permanente que está no âmago de tudo o que é o álbum, surge das mais variadas e dolorosas maneiras, atingindo assim um conjunto inumerável de sensações negras e fúnebres. O “trabalho” vocal (que no fundo não o é, dado ser apriorístico a qualquer racionalização) é assim uma analogia perfeita da cruel diversidade de uma mágoa profunda que através de múltiplos tormentos conduz à consumpção do ser. Gritos de dilacerante desespero, lamentos chorados, bramidos distantes, vulneráveis segmentos falados ou rugidos num registo mais grave, tudo isto são vocalizações que se podem encontrar aqui. Tudo faces de um definhamento claudicante que chega paulatina mas firmemente. Algumas das paisagens mais desesperadas criadas por IE ocorrem quando estes registos se intercalam, dando origem a autênticos jazigos de alma como é o caso de A Noite Que Perdura… e …O Cansaço De Viver.
É de notar que, só por si, a dinâmica da voz é bastante expressiva e transmite uma enorme sinceridade. Esta última impressão emana da naturalidade como a voz se “adapta” a diversos retratos de dor, não se mantendo num único registo sofrido que poderia esgotar-se em momentos que “clamam” por um tipo de vocalizações menos monótonas. No entanto, e dada a relação que Póstumo tem com a palavra, esta expressividade é reforçada. É-o visto que os muitos registos vocais estão em perfeita “consonância” com a vertente lírica apresentada no trabalho; lírica esta que prima pela deambulação e que tem na “voz” o perfeito complemento para este vagueio. Como já havia sido sugerido, a dimensão diacrónica quanto à origem do elemento lírico e do elemento vocal esbate-se, tão estreia que é a relação entre ambos (e de ambos para com o instrumental, ressalve-se). Para mais, o facto de serem usados alguns trechos de obras literárias (cujos autores já foram mencionados), torna a vinculação entre voz e letras ainda mais interessante do ponto de vista de uma certa revisitação do cânone literário, nomeadamente quando essas passagens parecem tão incrivelmente identificadas com o tipo de desempenho vocal presente. Identificação que parece tão inata mas que nunca havia sido tentada no BM português (a limitação surge naturalmente devido à língua usada); ao mesmo tempo que, comparativamente, nunca surge de forma tão instintiva (como aqui) noutros campos musicais.

O que se percebe então é que o valor puramente musical (aqui em estrito sentido sonoro) é esmagador; mas que o valor estético da obra obriga à interiorização da riquíssima vertente escrita do álbum sob pena de grande parte da compreensão do mesmo ser perdida. Isto seria certamente catastrófico devido à magistralidade lancinante da mesma.
Estas qualidades são demonstradas logo à partida pela forma superior como as influências literárias são “integradas” sem nunca se cair na cópia pura. Mesmo nas letras onde são usados excertos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro e Vergílio Ferreira, a identidade lírica de Inverno Eterno está bem patente. Até porque estas influências são, de alguma forma, transformadas em algo (ainda) mais desesperante pela “pena” de IE. Assim, além do “exercício” de excruciante revisitação e, de certa forma, homenagem aos autores referidos, há uma escrita em Póstumo que se basta. Certamente que existem temas e imaginários que percorrem a obra destes vultos da língua Portuguesa que são aqui abordadas. No entanto, estas afinidades conceptuais não são um banal plágio temático mas sim o resultado de uma certa visão emocional da existência que é partilhada com esses mesmos escritores, ainda que num tom de extremada angústia.
É particularmente interessante verificar este duplo rumo na escrita de IE nas letras que contém trechos de autores que muito influenciam a banda, visto que nesses momentos a “ligação revisitada” aos mesmos torna-se mais forte, destacando-se, a excelência das passagens escolhidas e da escrita original do colectivo. São nestes momentos em que se tornam especialmente evidentes as conexões à escrita inicial de Mário de Sá-Carneiro e aos momentos mais decadentes e pessimistas de Álvaro de Campos; uma espécie de “alma mater” negativista que forma tanto os mestres em questão, como a entidade Inverno Eterno.

Veja-se, exemplificativamente, o simbolismo decadentista de Sá-Carneiro “recuperado” nos cortantes versos de Enquanto A Morte Demora…, faixa que tem precisamente no seu início um excerto do poema Partida de Dispersão. O encadeamento entre a primeira estrofe (da autoria de Sá-Carneiro) e a segunda (da autoria de IE) mostra tanto a perfeita integração do imaginário do autor na música de IE, como a “abordagem” da banda à mesma corrente literária:

«”A minha alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobre um pranto
Que tenho a força de sumir também.”

No céu carregado de luto,
A sombra do meu ser finda.
Em avenidas abandonadas e em ruínas
Soltam-se ecos do passado,
Gritos distantes e distorcidos.
»

O mesmo sentido de familiaridade temática é encontrado n’…O Cansaço De Viver – faixa que encerra contundentemente o trabalho. Familiaridade com Sá-Carneiro, mas simultaneamente com a fase inicial e final da obra de Álvaro de Campos. No caso, é usada uma passagem do assombroso Opiário (primeira estrofe da citação), seguindo-se as palavras da banda (segunda e terceira estrofes). A saturação decadentista e a temática do cansaço (esta última brilhantemente abordada no poema O Que Há) revisitam Pessoa ao passo que o labiríntico desespero na dúvida do sentir (ou não sentir) evoca Dispersão (da obra com o mesmo nome) de Sá-Carneiro:

«”Porque isto acaba mal e há-de haver
Sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E, não há forma de se resolver.”

Sinto a alma doente,
por uma vida a que não pertenço.
Todo eu sou um cansaço,
De gestos inúteis e palavras vãs.

Vendo hoje o que vivi,
Surge-me a dúvida de o ter vivido;
Reconheço as sensações
Como um alguém intermédio.
»

Como já amplamente ressalvado que as influências literárias surgem como complemento a uma essência própria de Inverno Eterno. Nos exemplos anteriores deslindam-se momentos de estreita relação de espaços emocionais, de forte conexão temática e de criação mais “autónoma”. Nunca é demais referir que esta última instância tem identidade e sobretudo vitalidade (ainda que esta “vitalidade” seja consubstanciada por um mundo mortuário) próprias, independentes dos mestres que tanto partilham com o colectivo.
É inegável que existe em Póstumo uma “literatura” que vale por si só: qualitativamente mas também estilisticamente. Sobre este último aspecto o carácter profundamente intimista do trabalho pinta quadros de violenta melancolia que consubstanciam uma expressão bastante própria a nível de escrita. A dor é simultaneamente frágil e violenta; contemplativamente pessimista e tomada por espasmos de desespero. Todas estas dimensões depressivas que atravessam a obra estabelecem o domínio próprio da escrita da banda.
Aliás, a mesma inicia-se praticamente com uma das demonstrações mais intensas desta espécie de relação dicotómica que a dor assume no álbum, logo na segunda faixa (a que se segue ao Prólogo). Nesta faixa em particular aborda-se a desaparição emocional do momento presente pela associação com a imagem do passado. Este passado não é, no entanto, espaço de apaziguo. É sim, lugar de desolação e penumbra. Muitas destes estados de alma vão sendo reproduzidos ao logo do álbum mas surgem em algumas das estrofes de À Sombra Do Passado… na sua forma mais angustiante e paradigmática:

«De ímpeto estalou tudo,
A realidade ociosa e febril
Enfermou-me a alma.

(…)

Cada cicatriz uma lembrança,
Cada gume um sentimento.
Eu não me sinto daqui -
Sou do passado, da idade do fim…
»

Apesar do incontornável destaque que urge ser dado a determinados momentos (por servirem de paradigmas qualitativos e estilísticos do que por pelo álbum apresentar clivagens qualitativas), o que predomina no trabalho é um claro e inequívoco “sentimento” de unidade. Um “sentimento” tanto mais importante pela forma como se valoriza a obra através de uma conexão profunda entre as diversas faixas. Esta unidade (particularmente meritória na sua construção) é de análise intrincada porque as várias dimensões de lugubridade nunca deixam de ser memoráveis por si só, mesmo numa lógica conceptual comum. Simbolicamente esta ligação entre os movimentos do álbum torna-se mais clara nas próprias designações das faixas. Exceptuando o momento introdutório, as restantes oito músicas estão ligadas (duas a duas) pelos seus títulos, sugerindo inícios e fins para além da divisão imediata.
Além desta formulação particular, existe uma complementaridade profunda entre faixas que são, estruturalmente, bem distintas. Assim, podem-se encontrar momentos mais curtos e de alguma forma “directos” que estão em profunda consonância com faixas mais longas e flutuantes a nível dos ambientes nelas contidas. Isto sucede até pela forma como a estrutura e conteúdo não são facilmente dedutíveis apenas pelo tempo de duração de cada música, o que se traduz, na prática, em abordagens estruturais diferentes a tempos mais rápidos ou mais lentos que não passam necessariamente pelos critérios de imediatismo nas músicas curtas ou, pelo contrário, de maior durabilidade conceptual das faixas mais longas. Este aparente (e apenas isso quando contemplado o resultado final) paradoxo de “heterogeneidade unificada” mantém níveis de intensidade bastante semelhantes, independentemente do “formato” global da faixa.

Não será, portanto, difícil de depreender que se torna particularmente complicado destacar algo perante este cenário. Tornar-se-ia até desnecessário fazê-lo não fosse pela presença de algo que se consegue elevar acima da excelência geral de Póstumo, “forçando” a excepção. Algo que, de forma única encerra e contém em si, não só o que a obra tem de mais grandioso; mas também frisa, de forma única, toda a emocionalidade penosa da mesma. Simultaneamente este é o momento em que o álbum soa mais original num sentido mais “formal” do termo. No entanto, é aqui destacado, acima de tudo e antes de mais nada, pelo intimismo de um desespero (quase) tangível que se apresenta tão negro quanto belo. “Sonoramente”, a música em questão é marcada pelos acordes de uma tristeza serena mas profunda; pela voz na fronteira do asfixio provocado pela dor da perda permanente; e pela fragilidade tocante daquele assobio saudoso. Quanto ao resto, ao impacto emocional de tamanho monumento, tudo parece eufemístico para descrever o “alcance” de E Depois Que Tu Morreste…:

«Ilusões amaldiçoadas que me exaurem,
Numa existência enleada de sombras,
De cicios perturbadores…

E depois que tu morreste,
Dura em mim
uma saudade sem idade,
Uma dor que não tem fim…
»

Confessava Vergílio Ferreira na sua obra Para Sempre, precisamente nas “proximidades” do trecho usado numa das faixas aqui presente, estar “triste até à morte”. Se a inicial menção a Sá-Carneiro possuía o dom de resumir o “âmago” do que é a obra inicial de Inverno Eterno; a expressão de Vergílio Ferreira resume, com igual virtuosismo, o que “resta” depois de Póstumo

Conclusão

A experiência tida de uma obra com as características da presente poderá ser dicotómica: por um lado o sentimento de elevação resultante da interiorização da grandiosidade artística da obra; por outro as consequências profundamente devastadoras da interiorização dos espaços emocionais visitados pela mesma. A conciliação deste aparente antagonismo surge na definição da própria criação artística. Quando a arte “mais não é” que a reprodução para fins de inteligibilidade e catarse do fenómeno trágico, os dois enunciados acima entram em “rota” de complementaridade profunda. Partindo desta “junção” o universo particular (universo doloroso) é metáfora que através da criação artística retrata a própria universalidade do sofrimento.

Ainda que tal hipótese seja rejeitada, a realização estética do trabalho continua a ser de imensurável valia. Da mesma forma, também a sua abordagem ao Black Metal faz pensar, ainda que apenas por instantes, que poderá haver algo mais do que enquadramento geográfico por detrás da expressão Black Metal “Português”. Não pela plausibilidade efectiva de tal designação poder representar algo estilisticamente, mas pela forma como encerram em si tantos “fados” só na “ocidental praia lusitana” encontrados.
A capacidade de reproduzir, paradigmaticamente, estados de alma de uma “Portugalidade” é partilhada por uma outra obra literária para além das já mencionadas (e outras que ficaram por mencionar, claro): de António Nobre. Há que ressalvar as diferenças nos elementos usados e que remetem para uma melancolia bucólica. No entanto, é obra que também parte de um olhar profundamente fatalista, de uma eterna doença de alma. Sobretudo, a analogia faz-se através da descrição que o próprio Nobre (não por acaso tão admirado por mestres que influenciam directamente Inverno Eterno) faz da sua emblemática obra: “é o livro mais triste que há em Portugal!”. É isto que também significa Póstumo no seu “campo”: o álbum mais doloroso e genuinamente triste feito em Portugal.

PhiLiz
Escrito originalmente em 2010.10.14

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Bizarra Locomotiva – Álbum Negro (2009)

Publicado por PhiLiz em 07-02-2010

Artista: Bizarra Locomotiva
Álbum: Álbum Negro
Ano: 2009
Género: Industrial Metal/Rock
País: Portugal
Editora: Raging Planet

Tracklist:
01 – Nostromo
02 – Êxtases Doirados
03 – Remorso
04 – O Anjo Exilado
05 – Ergástulo
06 – Sufoco De Vénus
07 – A Procissão Dos Édipos
08 – Engodo
09 – Láudano 3
10 – Outono
11 – Egodescentralizado
12 – Angústia
13 – O Grito
14 – Prótese

Membros:
“BJ” – Teclado
Miguel Fonseca – Guitarra
Rui Berton – Bateria
Rui Sidónio – Voz

Introdução

Os contornos da viagem de Bizarra Locomotiva sempre foram definidos por uma enorme afirmação do lado oculto e improvável das coisas mundanas. Mesmo quando se tratam temas mais ou menos comuns (e tal não acontece com tão pouca frequência como se poderia pensar à partida), a abordagem é sempre bastante pouco usual, revestindo-se de uma sensibilidade característica ou simplesmente despindo-se por completo da mesma, numa retractação quase maquinal de realidades comuns. Esta característica transversal a toda a discografia da banda tem a sua componente mais visível no que se pode chamar poesia do “nojo” de Rui Sidónio, mas também na forma como as diversas influências musicais da banda são mescladas de forma peculiar e acima de tudo, original.

A viragem da página que se deu em Ódio conferiu a Bizarra Locomotiva uma estabilidade que está logo espelhada nesse álbum e que em muito justifica a capacidade de a banda ter tido tempo para maturar o trabalho de 2004 e também conseguir a consistência necessária para lançar um álbum ainda mais adulto, como é o caso de Álbum Negro. As inesquecíveis aparições ao vivo foram relativamente frequentes e tendo havido uma continuidade de membros da banda nos anos que separam os dois álbuns, não é de espantar que uma das principais qualidades globais que se retiram quase instantaneamente do Álbum Negro, seja precisamente a consistência e a coesão entre todas as partes da “locomotiva”.

Em termos “comparativos” com o que foi feito no passado há uma clara sensação que os princípios mais recorrentes (e simultaneamente mais positivos) da abordagem artística de Bizarra Locomotiva encontram-se presentes de forma mais forte que nunca neste trabalho. Tanto até, que a banda estica os extremos por si antes definidos e, não menos importante, consegue fazê-lo em múltiplas direcções. Álbum Negro pega em todo um conjunto de características que definem o núcleo do som único da banda em todos os seus trabalhos anteriores e “depois” consegue transportar a sua experiência sonora para um outro nível, virtude do aprofundar violento dos predicados que já antes lhe pertenciam. Revisitam-se espaços e ao mesmo tempo reinventando-se o “visitante” ou, neste caso, reinventando-se a “máquina”.

A negritude envolvente o lançamento de Álbum Negro justifica-se totalmente: o sexto longa duração (contando o “híbrido” First Crime Then Live enquanto tal) mostra-se como um monstro sombrio com a idiossincrasia de um buraco negro, não só pela ausência de luminosidade, mas também pelo crescer que esta ausência provoca na sua essência brutal e soturna. Tudo isto oferecido num mundo (construído de forma cada vez mais inteligente e notável) onde a bizarria (o emprego do termo é muito mais do que um trocadilho) reina.

Review

O Álbum Negro. Soa a paradigma e a momento decisivo. No caso de Bizarra Locomotiva é exactamente isso e algo mais ainda. É assumir a roupagem do que é tenebroso por cima de uma identidade já de si obscura e conturbada, sendo que no final, tanto o negro como o bizarro se moldam um ao outro e claro, emerge uma triunfal mudança. Mudança com contornos de familiaridade (e que no caso de Bizarra vale imenso), mas ainda assim uma dilatação para terrenos até então menos explorados, ou explorados de uma outra forma. Formam-se pois momentos em que a escuridão absoluta é rasgada por algumas sombras; a frase poderá parecer paradoxal, mas adequa-se perfeitamente a um álbum também, de certa forma, paradoxal pela capacidade de ter silhuetas que se denotam e destacam, mesmo que essas mesmas estejam envoltas no asfixio da cor.

À partida o universo de Bizarra Locomotiva já se caracteriza pela distorção dos padrões habituais que rodeiam a idiossincrasia do género musical da banda (musical e conceptualmente). Musicalmente afastados do Industrial mais tradicional pelo estrépito provocado (sensivelmente a mesma razão que os afasta do Industrial Rock) e demasiado extravagantes mesmo para o conceito alargado de Industrial Metal, não obstante o peso inerente a BL e que neste Álbum Negro é maximizado em todas as direcções. À fúria visceral de Ódio juntam-se um conjunto de atmosferas perturbadoras que dão ainda mais corpo ao som já de si esmagador do bizarro colectivo. Sensorialmente a sensação claustrofóbica impera com a maquinaria pensada ao pormenor para deixar passar apenas a necessária dose de alívio melódico para que tudo não seja demasiado estratosférico. Deste equilíbrio vive a expressão do Álbum Negro e sobretudo a expressão frequentemente doentia da lírica singular de Rui Sidónio, factor essencial para que tudo faça sentido na desolação do habitual, desconstrução esta que percorre e identifica o álbum.

Constitui-se então aquilo que é o essencial no trabalho: a relação entre a palavra maldita e obscura (aqui especialmente obscura) de Sidónio e o conturbado mundo de pesadelo criado por Miguel Fonseca (compositor exclusivo do trabalho), situando nos pilares da electrónica assombrosa e agressiva e nos riffs distorcidos (o adjectivo tem uso duplo) que se juntam perfeitamente com os sons dissonantes que são disparados pelos samples. Os adjectivos que fazem jus aos momentos de génio gritado de Sidónio são os mesmos que se poderiam aplicar a todo o ruído cadenciado que sai da mente do antigo mentor de Thormenthor. Tudo surge à beira do abismo nesta relação homem-máquina, com o caos a pairar com o choque das duas principais forças por detrás da negritude aqui encontrada. A “unir” a vertente instrumental à vertente vocal-lírica, encontra-se o conceito do álbum baseado no livro do séc. XV, Hypnerotomachia Poliphili, que explora a fase hipnagógica do sono. Segundo a banda, o processo criativo do álbum passou precisamente pelo aproveitamento de alguns desses momentos para construir aquilo que é todo o imaginário lírico, musical e visual do Álbum Negro, onde espaços da Idade Média e ambientes futuristas convivem fragmentariamente. Faz sentido já que das imagens estranhas criadas pelo binómio palavra/som vive BL e desta vez ainda de forma mais acentuada e acima de tudo refinada.

Tamanho monstro conceptual requisitou mais potência, mais peso e mais densidade no som. Tudo é ainda mais preenchido do que no passado e os sons parecem mais diversificados, acompanhados por aquele que é o gutural português com mais capacidade de transmissão lírica (e que lírica, diga-se de passagem). Os samples imaginados por Miguel Fonseca e executados por BJ fazem parte, juntamente com os sintetizadores, da maquinaria de Bizarra Locomotiva e a sua presença faz-se sentir com mais força em momentos mais cadenciados como o início viciante de Engodo, as fantasmagóricas incursões em Outono ou a conjunção entre os samples dissonantes e os subtis apontamentos dos sintetizadores em Ergástulo. Qualquer um dos momentos mencionados é marcante no Álbum Negro e não será grande atrevimento alargar isto a toda a carreira de BL. Além deste papel mais “melódico”, os sintetizadores e sobretudo alguns dos samples criam uma áurea bastante Industrial de uma forma, que sendo pesada (às vezes extremamente), não é ligada ao cânone do Industrial Metal. Assim sendo, o seu peculiar uso é em boa parte responsável pelo som único da banda. Torna-se especialmente evidente quando se ouve o arrastado ritual d’A Procissão Dos Édipos ou o claustrofóbico e tóxico ambiente do Spoken Word doentio de Angústia.

A completar o ataque rítmico temos a bateria de Rui Berton (também da mente de Miguel Fonseca) em perfeita integração e (des)harmonia com as paisagens dos samples e sintetizadores. Esta integração é notória em faixas mais aceleradas onde o martelar constante é providenciado tanto por Berton como pelos samples de BJ. Este é de resto um dos traços mais característicos do espectro mais Industrial do trabalho já que as faixas mais rápidas apresentam este tipo de sonoridade metálica e latejante a encher por completo o trabalho. Nas faixas mais aceleradas como Êxtases Doirados ou o frenético Egodescentralizado, o poder rítmico da máquina por detrás de BL é bem evidente sendo que sobra ainda algum espaço para deambulações menos óbvias no acompanhamento dos restantes elementos. A forma como a bateria está produzida e colocada ajuda em muito à capacidade da “locomotiva” produzir sons de redobrado poder e intensidade. Nesta secção e nos momentos referidos há que não esquecer a colaboração Carlos Santos como baixista convidado que embora discreto oferece ainda mais “corpo” a algumas das faixas (ouçam-se as linhas palpitantes do baixo em Engodo como exemplo).

Para completar todo o invólucro sonoro da máquina que é BL não poderia faltar a instrumentalização por excelência daquele que é o principal compositor do grupo: o guitarrista Miguel Fonseca. O papel das guitarras é claro, vital. Se por um lado o instrumental tem na bateria, sintetizadores e samples a sua pulsão e circulação, por outro lado tem na guitarra os seus gritos, uivos e até lamentos. A imagem mais vezes criada ao ouvir o trabalho é de um rasgar constante, pela camada distorcida e dissonante, pelos riffs ritmados e de uma simplicidade terrivelmente eficaz. Predominantemente o efeito é atingido com as guitarras embebidas em distorção, centradas em riffs monolíticos que carregam e quebram o som simultaneamente. O trabalho de guitarra alude a momentos mais ligados ao Industrial Metal devido ao peso que contém, embora a escassez do conforto melódico remeta mais para o Industrial criando uma atipicidade quanto à forma como a guitarra opera em BL, distinguindo-os do que está, musicalmente, à sua volta. Isto porque não são riffs de Industrial Metal mas o seu peso também ultrapassa em larga escala o Industrial mesmo na sua vertente mais Rock. É um híbrido que expele dissonantemente identidade e unicidade, mesmo atendendo ao trabalho passado da banda.
Quando o lado intrinsecamente brutal e ruidoso se ausenta por breves momentos a guitarra pode produzir estranhos lamentos como o faz em Outono ou até surpreendentemente cativante como n’O Grito, mostrando uma capacidade de variação para além da reconhecida aptidão para (des)construir faixas com riffs duros e distorcidos. Neste último campo, poder-se-ia destacar quase todo o trabalho mas torna-se especialmente interessante apreciar a forma como riffs tão simples conseguem um efeito tão obscuro como em Sufoco De Vénus ou na lentamente decadente Prótese.

O perturbado mundo do Álbum Negro nunca seria o mesmo sem a presença inconfundível do Grito de Bizarra Locomotiva. Trespassando de forma violenta e impiedosa todo o instrumental bizarro, Rui Sidónio é uma força bruta à solta, a humanidade mais carnal naquilo que é BL. A sua voz é naturalmente perturbadora: não por ser um gutural singular e visceral, mas porque além disso a força da mensagem é sentida e ouvida de forma particular. Esta capacidade singular de transmitir mais do que vocalizar, de dizer mais do que “cantar” é o que singulariza Sidónio e é o complemento perfeito para os distúrbios instrumentais do resto da banda. Doutra forma a sensação seria de impotência e incapacidade para dar continuidade ao muito negro universo que aqui se constrói. É isso que, por comparação directa, a prestação de Fernando Ribeiro no Anjo Exilado prova cabalmente, não obstante a competência da participação do vocalista de Moonspell.
No entanto, as vocalizações do álbum não são apenas momentos que acrescem à tensão construída pelo instrumental através de brutalidade crua e primitiva. O assombroso Ergástulo mostra um registo quase sussurrado de uma expressividade não menos contundente do que aquela apresentada quando Sidónio parte para a pura agressão. Da mesma forma, a forma inquietantemente tranquila como parte da letra de Prótese é recitada também se afasta do registo mais presente, mantendo intactos os elementos que fazem da voz de Rui Sidónio o veículo perfeito para a transmissão da poesia do tormento criada precisamente pelo membro fundador de BL.

Desta poesia única se alimenta o álbum. Única tanto pela riqueza vocabular como pela peculiar capacidade de tornar o normal em bizarro, sempre com uma profundidade imensa. Sem qualquer desprimor para com tudo o que envolve o trabalho: nas palavras de Rui Sidónio reside a pedra de toque do trabalho, o momento em que tudo se define, onde se dá a (anti)catarse de tudo o que se vai acumulando. Pela lírica de luxuriante que corre nos Êxtases Doirados, pelas existenciais linhas de Ergástulo, pelas aliterações que se prostram n’A Procissão Dos Édipos, pelos momentos confessionais de Engodo ou pela dor pura de Angústia estão os cantos do Álbum Negro. As imagens de pesadelo onde tudo é possível pela transcendência da palavra revoltosa, ininterrupta e à beira do suportável quando aqueles momentos se encontram bem à flor da pele. É aqui que os sentidos das  palavras de Sidónio também se multiplicam, pela ambiguidade que uma escrita deste género sempre acarreta e também por um subterrâneo pendor surrealista.

Num álbum dominado pela palavra (a excepção é a introdução e a incursão pela Industrial mais electrónica em Láudano 3), os momentos em que a mesma surge mais marcante e simbólica também são aqueles que será natural destacar, embora pela qualidade lírica que atravessa todo o álbum a escolha recaia (ainda mais do que seria normal) nos momentos com uma mensagem introspectiva mais profunda. Aqui surgem os momentos onde a “locomotiva” avança a uma velocidade mais moderada, quiçá pelo espinhoso caminho a percorrer…

O ambiente ritualístico de Engodo oferece-se como primeiro e perfeito exemplo de dolorosas viagens. O ambiente criado pelos teclados e guitarra é tenso e assombroso, para que a voz assuma o seu papel de expurgadora de demónios, ora quotidianos ora mais filosóficos, sempre de forma bem particular:

Rimo a constituição íntima das coisas
Que se me deparam lacrimosamente
Adormecido de todas as estranhezas
Que se me afligem ao extraviar-se

Mas vendi-me
Num largo gesto de simpatia
Que me custou a morada

Inexoravelmente calmo, seco a garganta
Sanhudo, bebo da mentira alheia
Indiferente, classifico-a raiz dos enganos
E exercito-me ao recitá-la

De forma arrastada e pesada surge a faixa final, Prótese. Para além de alguns dos riffs mais fortes do álbum, a faixa destaca-se pela sua divisão entre o Spoken Word e o som mais “tradicional” da banda. Qualquer uma das “partes” é intensa à sua forma: uma pelo natural elemento ruidoso e outra pela voz sussurrada de Sidónio declamando:

Vagueio pelo trópico de câncer com uma ogiva ao peito
mas consigo ver tudo que deixei para trás

Sinto a minha a gorda agonia a tolher-me o passo sem vestígios de pudor só de pensar no tempo que perdi… o destino assim o quis…!
Penso em ti sete vezes por segundo
Arrasto-te comigo para todo o sempre. És  a besta que me persegue, a minha deficiência adquirida. Partiste-me o que tinha de mais precioso.
A minha alma mudou de envólucro.
Tarde demais para voltar atrás.

Apodreço sem vida… mas tu… tu ainda ficas!

Resta apenas uma coisa por dizer. A única que se necessária fosse conseguiria definir nesta besta erguida por Bizarra Locomotiva. Não por escassez de substância de todo o álbum mas pelo que representa enquanto paradigma do que é que a banda consegue fazer, transformando-se através da overdose daquilo que já tinha de melhor. No monumento de intensidade, potência e, à sua tremenda maneira, beleza que é Ergástulo o Álbum Negro tem o seu momento sublime. Bizarra Locomotiva tem um dos seus clássicos definitivos num registo lento, doloroso e simplesmente arrepiante:

Canso-me perplexo
da ode triunfal
apreciava a dor da luz
dissecando a graça suprema
orgulho a salvo, prostro-me
perante o teu plácido legado
o meu pensamento processa-se
silenciosamente…

Basta! Sou estrume! Esta é a minha certeza
fertilizante orgânico
do mal que tudo corrompe

Untando-te a vontade
com ruidosas tonturas
a minha omnívora alma
devora-te legando amargas costuras
Neste ergástulo de ser quem sou, envelhecido, num refluxo de culpa
acaricio-te o contorno dos olhos
e cerro os meus
deixando-te moribunda.

Basta! Sou estrume! esta é a minha certeza
fertilizante orgânico
do mal que tudo corrompe

O Álbum Negro. Foi o momento de renegar quase tudo. Renegar tudo menos a capacidade reinventiva. O resultado é uma vertiginosa viagem por lugares escuros e desagradáveis; onde o desconforto domina. Seja pelo sítio para onde se é transportado pela Bizarra Locomotiva ou pela simples visão do que essa viagem representa. Seja qual for a situação, o Álbum Negro para além de soar a tal, estabelece-se mesmo como mais um momento essencial na carreira da banda.

Conclusão

No meio de trabalhos tão brilhantes como o homónimo, Bestiário ou Ódio, a monocromática proposta do Álbum Negro segue precisamente a característica principal do brilhantismo do seu antecessor: contrastar para se impor. É isso mesmo que o trabalho faz na discografia de BL. Não aperfeiçoa (no sentido de continuidade, entenda-se) o que foi feito no passado e lança-se sim em caminhos escuros (duplo sentido no termo, claro). É porventura risco maior, mas também por isso o resultado é mais estrondoso.

Depois da surpreendente (tendo em conta os percalços vividos pela banda nos tempos entre Homem Máquina e o trabalho de 2004) maturidade de Ódio, os BL fortalecem-se ainda mais. Também se poderá falar de maturidade mas num sentido distorcido (como “deliciosamente” quase tudo o é no universo artístico de BL) onde o tempo deu lugar a mais poder, mais fúria, mais “águas revoltas”: mais exagero no fundo. Outras comparações à parte, no sentido mais primitivo e selvagem de romper os limites de forma caótica o Álbum Negro cumpre perfeitamente com a ambição e atinge genialmente o objectivo.

PhiLiz
Escrito originalmente em 2010.02.07

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Burzum – Filosofem (1996)

Publicado por PhiLiz em 15-09-2009

Artista: Burzum
Álbum: Filosofem
Ano: 1996
Género: Ambient Black Metal
País: Noruega
Editora: Misanthropy Records

Tracklist:
Versão Norueguesa
01 – Burzum
02 – Jesu Død
03 – Beholding The Daughters Of The Firmament
04 – Decrepitude I
05 – Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte
06 – Decrepitude II

Versão Alemã
01 – Dunkelheit
02 – Jesus’ Tod
03 – Erblicket Die Töchter Des Firmaments
04 – Gebrechlichkeit I
05 – Rundgang Um Die Transzendentale Säule Der Singularität
06 – Gebrechlichkeit II

Membros:
Varg “Count Grishnackh” Vikernes – Todos os instrumentos e Voz

Introdução

Qualquer análise séria ao que hoje, retrospectivamente, se considera o “movimento” norueguês de Black Metal (num sentido puramente musical) tem que passar pela exaustiva compreensão do que Burzum representou endogenamente para esse mesmo “movimento” e mais tarde, para o Black Metal em geral. Desnecessária e bem menos interessante é uma retrospectiva em relação aquilo que aconteceu com o homem por detrás de Burzum: o homicídio e restantes crimes alimentaram (e continuam a alimentar) imaginários e espaços bem menos nobres do que a criação artística de Varg Vikernes e por muito que isso satisfaça algumas mentes, não é, seguramente, o que mais interessa na vida de Varg e sobretudo no universo que rodeia Burzum.

Assim, bastante para além dos mundanismos, surge a obra seminal e essencial de Burzum. Quando Filosofem foi lançado já Varg Vikernes cumpria a sua pena pelo assassínio de Euronymous assim como pelo envolvimento nos incêndios de quatro igrejas norueguesas. Nessa altura obras como Det Som Engang Var e Hvis Lyset Tar Oss já mostravam claramente (de forma mais obscura já existiam alguns indícios no EP Aske e no álbum homónimo) o caminho de Burzum no que à composição de Black Metal diz respeito. Este facto surge como notório atestar da evolução rápida da criação de Varg na medida em que apesar de terem sido lançados anos depois da sua gravação, os últimos álbuns (no que respeita ao período em que Varg esteve em liberdade) foram gravados com menos de um ano de diferença. No caso de Filosofem, a gravação deu-se em Março de 1993 sendo que o seu lançamento só ocorreria em Janeiro de 1996, quase três anos mais tarde.

Apesar de este atraso ter feito com que o lançamento do álbum (e não a sua gravação) se situe na segunda metade da década de 90 e portanto numa altura em que já várias bandas exploravam os caminhos trilhados pelas bandas escandinavas (particularmente as norueguesas), o impacto de Filosofem é tremendo. Os caminhos explorados por Varg em Filosofem acentuam o que já havia sido feito com os anteriores álbuns e fundam uma série de preceitos que hão-de influenciar de forma decisiva um sem número se tendências dentro do Black Metal. Filosofem estabelece-se como incontornável referência, seja de forma directa como no caso completa criação e moldagem no que concerne ao Ambient Black Metal, ou de forma indirecta como acontece no que diz respeito ao Depressive Black Metal (onde a própria constituição do projecto Burzum é uma influência), passando por um sem número de outras divisões estilísticas dentro do Black Metal onde a vertente atmosférica é importante.

Review

Se há aspecto que sempre esteve inerente à música de Burzum é o poder de expressar emoções de uma forma intimista e poderosa que não raras vezes transforma a audição do projecto numa viagem por mundos que, por muito distintos que sejam, têm como característica comum o facto de se distanciarem imensamente do espaço em que a audição é feita. Em Filosofem, Varg consegue levar este efeito até ao extremo, o mesmo extremo que define o veículo artístico utilizado para simultaneamente criar e percorrer a obra, ou seja, o Black Metal.

A par com este efeito, uma outra sensação presente na quarta obra de longa-duração de Burzum torna-se particularmente importante de destacar, tanto devido à forma como é desenvolvido na obra, como também porque explica muito por detrás do propósito artístico do projecto em si. Filosofem trata-se de uma tentativa (artisticamente tremendamente bem sucedida, diga-se de passagem) de abstracção em relação à dimensão humana da qual é, de alguma forma, “prisioneira”. A desumanização em Filosofem não se dá através a supressão emotiva. Dá-se antes pelo transbordo da mesma. As referidas deambulações para fora do espaço e tempo da audição de Burzum prendem-se estreitamente com o facto de os ambientes criados por Varg serem, não só antagonistas do quotidiano habitual, mas sobretudo por projectarem estados de espírito cuja ligação humana é reduzida ao mínimo da inevitabilidade inerente a qualquer criação da espécie. Se em relação ao primeiro aspecto Burzum não é exemplo único (apesar do brilhantismo como é feito ser ímpar), já o segundo aspecto demonstra desde logo uma faceta importante da genialidade desta criação de Varg no que concerne ao objectivo de atingir uma obra artística onde a própria execução da mesma se torne irrelevante. Num aforismo (que não deixa de ser irónico dado o contexto extra-musical e as inúmeras “análises” existentes ao mesmo): a arte pela arte.

É partindo (conscientemente ou não pouco interessa dado o resultado apresentado) desta base que Varg opera nova transformação no universo de Burzum incrementando a presença da vertente Ambient em Burzum. Se é bem verdade que desde o início que Varg inovou no que concerne ao uso de teclados em conjunto com o Black Metal e que sobretudo em Det Som Engang Var e Hvis Lyset Tar Oss, a importância dos teclados para o efeito final destes trabalhos é imensa. Neste campo, Filosofem não é uma mudança técnica em relação ao passado do projecto, mas existe antes um acentuar e um aprofundamento do papel ambiental. Há semelhança dos seus antecessores, segue o caminho da exploração Ambient a par do Black Metal (a presença de faixas somente ambientais é um elo de ligação entre o álbum aqui exposto e os dois que o antecedem), mas aqui dá-se o aperfeiçoamento final da integração entre os dois géneros. Uma faixa como Burzum (mais conhecida como Dunkelheit) elucida sobre esta mudança face a algo como Det Som En Gang Var: ambas as músicas (duas das melhores do género) possuem um uso extensivo de teclados mas ao passo em que na música do álbum Hvis Lyset Tar Oss existe uma sensação de justaposição (de notar que este facto não oferece qualquer tipo de crítica negativa dada a mestria como é feito), a música de abertura de Filosofem dá a ideia de continuidade e progressão simultânea entre os riffs hipnóticos e as batidas da bateria e o trabalho da bateria. Une-os o minimalismo de execução, mas também uma percepção de complementaridade que remete para uma composição simultânea (independentemente de ter sido este o processo composicional) dos elementos mais “tradicionalmente” associados ao BM e da parte Ambient. Nada disto coloca em causa todo o brilhantismo de, por exemplo, uma faixa como Det Som En Gang Var (repito, uma obra-prima de Burzum e simultaneamente de todo o género). A progressão de Burzum não coloca em causa a maturidade e intencionalidade de cada uma das obras passadas. Trata-se de uma “pintura” com diferentes secções e que atingem invariavelmente a excelência.

Precisamente para o nível atingido por Burzum em Filosofem em muito contribui aquilo que será, porventura, a maior qualidade de Varg enquanto músico: uma ímpar capacidade de composição. Como referido, a mestria na fusão dos elementos mais tradicionais do Black Metal com a sonoridade ambiental é um destaque ao qual se junta a capacidade de juntar elementos de execução simples, obtendo um efeito tão poderoso e único. A face mais visível desta qualidade são os riffs que invadem o trabalho que têm tanto de terrivelmente simples como de imensamente belos e assombrosos. Qualquer uma das primeiras três músicas possui riffs que conseguem, não obstante a sua simplicidade, transmitir todo um conjunto de sentimentos com uma intensidade incrível. A dificuldade está precisamente neste ponto: os extremos técnicos – seja extrema simplicidade ou complexidade – podem anular o objectivo a que se propõe pelo que para tal não suceder há que ter uma ideia clara de condução das músicas para não se cair em exageros.

Em Filosofem, atinge-se com perfeição o ponto de equilíbrio. A título de exemplo, a primeira faixa Burzum (Dunkelheit) parece pensada ao pormenor em relação à gestão dos tempos em que a repetição dos riffs é feita. Cada um dos elementos tem um tempo de entrada perfeito e que provoca subtis mudanças de ambiente, impedindo qualquer tipo de enfado: os riffs iniciais introduzem a faixa de forma lenta e sombria, com a bateria a seguir a mesma toada até à entrada do riff principal, ao que se segue os teclados que sublinham de forma perfeita a melodia da guitarra. São sete minutos onde estes elementos são conjugados de forma perfeita com a voz arrepiante de Varg e com algumas mudanças quase imperceptíveis, mas que fazem toda a diferença para que não haja uma repetição excessiva na faixa. No entanto, Varg também varia na forma como faz fluir as faixas, não se centrando simplesmente nos teclados para fazer criar momentos interessantes. A segunda faixa, Jesu Død (mais conhecida pela sua versão alemã Jesus’ Tod) é demonstração disso mesmo através de um cortante conjunto de riffs rápidos que é acompanhado pela igualmente furiosa bateria. Neste caso, a própria velocidade dos riffs e cria uma dinâmica que não se torna cansativa durante os mais de oito minutos que a faixa tem. Claro que velocidade por si só não representa nada e Jesu Død é mais um enorme momento sobretudo devido ao riffs memoráveis que compõe a música.

Como já referido, Filosofem constitui-se como uma obra de grande dimensão graças à forma como a simplicidade técnica se transcende em brilhantismo quando tudo está perfeitamente encaixado. As faixas mencionadas atestam da qualidade dos riffs neste trabalho, assim como da forma como os teclados minimalistas sublinham uma atmosfera nostálgica e melancólica. Por outro lado, naturalmente apenas presente na parte Black Metal do álbum, a bateria não tem um papel tão evidente, servindo sobretudo para frisar o tempo das músicas que acaba por variar consideravelmente nas três primeiras faixas. A própria produção acaba por relegar para segundo plano a bateria uma vez que se encontra bastante “enterrada” na parede de som provocada  Ainda assim, o som algo “seco” da bateria é uma das características notórias do álbum, seja nos momentos mais acelerados de Jesu Død ou quando o tempo médio de – por exemplo – Beholding The Daughters Of The Firmament (Erblicket Die Töchter Des Firmaments) é dominante. Há semelhança do que sucede com o baixo (poucas vezes audível durante o trabalho devido à enorme camada de distorção), a bateria limita-se a servir da base para todo o aparato criado pelos elementos que se destacam em Filosofem.

Também com uma colocação bastante “distante” na produção encontra-se a voz de Varg. No entanto, este é um dos elementos mais reconhecíveis e importantes para a caracterização do álbum e sobretudo para o seu estrondoso resultado final. De notar, antes de mais nada, que a voz apresenta-se aqui de forma bastante diferente em relação aos anteriores trabalhos de Burzum. Antes deste trabalho a voz de Varg era um gutural extremamente gritado, bastante único e original para o início dos anos 90 e simultaneamente uma das marcas características da abordagem singular do projecto em relação ao Black Metal. Em Filosofem ainda se conseguem discernir alguns traços da voz gutural mas extremamente aguda que foi dos traços principais dos primeiros trabalhos, mas a produção e a forma como a voz está encaixada no som mudam quase por completo. Usando o pior microfone do estúdio onde o álbum foi gravado, Varg obteve um efeito completamente distorcido e crispado que poucas semelhanças possui em relação a uma voz humana mesmo quando comparado com as vozes torturadas dos primeiros trabalhos ou mesmo em relação ao conceito mais alargado de gutural nos subgéneros mais extremos do Metal. Desta forma, a voz acaba por ser uma continuação do som difuso das guitarras, rasgando a parede sonora com um gutural agonizante que quase parece remanescente de um som Industrial, tal é a forma como a voz soa distorcida. O resultado final desta abordagem é soberbo, retendo grande parte dos sentimentos dolorosos que eram transmitidos com os guturais mais gritados dos álbuns anteriores, ainda que a forma como tal efeito é atingido seja consideravelmente diferente.

Em consonância com a emotividade dos vocais estão as letras do álbum. Em relação ao alcance das mesmas, pode-se dizer que não poderiam ter uma melhor presença que não num trabalho cujo título é Filosofem. Não sendo letras complexas num sentido tradicional do termo, deambulam por um mundo de preocupações existenciais através de relatos de um tempo passado e de paisagens desaparecidas. A imagética naturalista é uma constante e serve tanto de descrição simples (como na parte mais ambiental do álbum), como de plataforma para temas que parecem corroer a imaginação de uma mente em permanente viagem interior. A já referida sensação de viagem dá-se em grande parte devido aos mundos criados pelas letras do trabalho mas que mais do que remeterem de forma literal para um conjunto de imagens, se tratam de metáforas para um transporte que ocorre sobretudo interiormente porque esta é sobretudo a travessia que interessa ao “filósofo”. Neste campo, a primeira parte do álbum oferece a porção mais conseguida de Filosofem uma vez que a parte exclusivamente Ambient tem uma abordagem mais directa e menos profunda no campo lírico.

Assim, a primeira faixa auto-intitulada Burzum (mas “popularizada” como Dunkelheit) possui um misto de imagética naturalista e um certo tom pagão que se acaba por surgir de forma mais clara na segunda parte do álbum. Não sendo a temática mais interessante do álbum, acabam por resultar muito bem em toda a faixa, nomeadamente no momento quase falado que acaba por surgir na última metade da faixa. Segue-se Jesu Død (de novo mais conhecida pela versão alemã: Jesus’ Tod) com uma descrição negra da figura de Cristo. “A morte de Jesus” representa o nazareno de forma pouco usual, não como uma figura de paz e tranquilidade mas como uma figura negra e sombria. Mais do que um ataque gratuito à pessoa de Cristo, trata-se de uma retratação que se foca no lado oculto e sobretudo humano de alguém cujo sofrimento e dor se sobrepõe claramente à sua tradicional “reputação”, ainda que tal seja escondido.
No entanto, e sem qualquer desprimor pelas mencionadas letras, o melhor momento neste campo em Filosofem (e em toda a discografia do projecto) encontra-se na terceira faixa, Beholding The Daughters Of The Firmament (Erblicket Die Töchter Des Firmaments). Uma interrogação existencial invadida de melancolia e solidão, de uma alma em permanente convulsão interrogativa provocada pela noção de desconhecimento e vazio face à sua existência. Nada mais perfeito para sintetizar a força emotiva de Filosofem do que a “magnum opus” lírica de Varg:

I wonder how winter will be
With a spring that I shall never see
I wonder how night will be
With a day that I shall never see
I wonder how life will be
With a light I shall never see
I wonder how life will be
With a pain that lasts eternally
In every night there’s a different black
In every night I wish that I was back
To the time when I rode
Through the forests of old
In every winter there’s a different cold
In every winter I feel so old
So very old as the night
So very old as the dreadful cold
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally
I wonder how life will be
With a death that I shall never see
I wonder why life must be
A life that lasts eternally

Por motivos naturais, as três primeiras faixas acabam por ser as que merecem uma atenção maior quando Filosofem é abordado de uma forma mais compartimentada e focando-se essencialmente na sua vertente ligada ao Black Metal. Compreende-se este aspecto na medida em que as faixas seguem a linha do BM que Varg aprimorou e seguem uma linha que acaba por ser mais natural dentro do género. No entanto, há que mencionar que sem Decrepitude e Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte, Filosofem não atingiria patamares e ambientes que combinam perfeitamente com aqueles presentes nas primeiras faixas. Decrepitude será, talvez, a mais perfeita integração da vertente Ambient com o Black Metal o que torna a sua primeira versão (quarta faixa) numa passagem perfeita para a longa parte ambiental e a sua versão instrumental (última faixa do álbum) num fecho condizente para um álbum que consegue unir de forma sistemática as duas sonoridades dominantes (embora as referidas faixas tenham um sentimento mais pertencente à primeira esfera ambiental do que ao BM). No meio das duas, surge a monstruosa Rundtgåing Av Den Transcendentale Egenbetens Støtte, a única peça puramente ambiental do trabalho. Percorrida por uma melodia simples e hipnótica, a música vai flutuando longamente pelas suaves notas sintetizadas que percorrem a música por mais de vinte e cinco minutos (um quarto do álbum, aproximadamente). Ainda que possa não fazer sentido de um ponto de vista individual, a quinta faixa fornece a viagem de relaxamento e descompressão perfeita quando se ouve o álbum como um todo, sobretudo devido à forma como contrasta com a emotividade extrema que é presenciada na primeira metade do álbum.

Se é verdade que a compreensão de Filosofem enquanto obra passa obrigatoriamente pela segunda metade do álbum, é inegável que os três clássicos que iniciam o trabalho valem muito por si próprios. A hipnótica Burzum (a primeira faixa escrita por Varg em Agosto de 1991 ainda com a designação de Uruk-Hai) é um dos momentos incontornáveis em todo o movimento norueguês, pelas razões já largamente mencionadas e pela forma como simboliza todo o conceito de Ambient Black Metal. Da mesma forma, Jesu Død lembra algum do trabalho mais rápido de Varg e constitui-se como outra obra-prima, ainda que de uma forma distinta das outras duas faixas mais lentas, o que prova a capacidade de Varg de compor temas de enorme qualidade, com considerável variedade entre si. Depois destes dois monumentos, a terceira faixa é uma “overdose” emocional de sentimentos melancólicos e profundos. Devido a estas características, Beholding The Daughters Of The Firmament acaba por ter óbvias influências em vertentes como o Depressive Black Metal sendo que a sua influência só é ultrapassada em matéria de importância pelo facto de ser o momento alto num álbum que nunca sai de um patamar de excelência.

Um paradoxo em forma de obra de arte, onde a simplicidade quase inocente dos meios contrasta largamente com tudo aquilo que é atingido pela experiência que vai, obviamente, muito além da sua execução per se. As emoções atingidas e os “lugares” são um reflexo de um álbum que “filosofa” através da obra musical por temas cuja complexidade e profundidade retractam uma jornada interior que se processa permanentemente.

Conclusão

Filosofem trata-se de um trabalho visionário e único que acaba por entrar na categoria restrita de obras claramente à frente do seu tempo. No entanto, a sua imortalidade atesta-se pelo facto de não ser mera influência cronológica, mas sim por possuir uma qualidade que o destaca dentro do subgénero de Black Metal que acabou por influenciar. Não é só o facto de surgir antes de toda a gente no campo do Ambient Black Metal: trata-se de ser uma referência no mesmo porque possui um pioneirismo suportado por uma qualidade composicional que não é atingida por muitos trabalhos.

Há semelhança do que acontecera no passado com os primeiros lançamentos de Burzum, a criação de Varg lançada em 1996 constitui-se como mais uma demonstração de excelência de Burzum. Não como um isolado momento de grandeza, mas como mais uma prova sistemática de como Burzum se constitui como banda seminal do Black Metal moderno em várias das suas vertentes, mantendo-se ao mesmo tempo actual e não valendo apenas pela ideia “curiosa” de clássico… e sobretudo fazendo-o através de uma série de lançamentos onde é muito complicado encontrar momentos abaixo do patamar de grandiosidade.

Acima de tudo uma obra total que usa o Black Metal como instrumento para deixar fluir uma experiência que transforma a audição numa das melhores formas de visitar caminhos onde o sentimento niilista impera, não de forma puramente destrutiva mas numa perspectiva de constante indagação perante tão funesta existência.

PhiLiz
Escrito originalmente em 2009.09.15

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Type O Negative – October Rust (1996)

Publicado por PhiLiz em 05-02-2009

Artista: Type O Negative
Álbum: October Rust
Ano: 1996
Género: Gothic Metal
País: EUA
Editora: Roadrunner Records

Tracklist:
01 – Bad Ground
02 – Intro (Untitled)
03 – Love You To Death
04 – Be My Druidess
05 – Green Man
06 – Red Water (Christmas Mourning)
07 – My Girlfriend’s Girlfriend
08 – Die With Me
09 – Burnt Flowers Fallen
10 – In Praise Of Bacchus
11 – Cinnamon Girl
12 – The Glorious Liberation Of The People’s Technocratic Republic Of Vinland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa
13 – Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]
14 – Haunted
15 – Outro (Untitled)

Membros:
Johnny Kelly – Bateria*
Josh Silver – Teclado
Kenny Hickey – Guitarra
Peter “Peter Steele” Ratajczyk – Baixo, Voz

*Nota: Apesar de creditado no trabalho, toda a bateria do álbum foi programada.

Introdução

A unicidade que caracteriza e define Type O Negative (seja no âmbito musical ou fora dele) faz com que a exploração do universo da banda seja uma tarefa hercúlea sobretudo na gestão das inúmeras sensibilidades do colectivo americano (particularmente a humorística). Uma pequena escorregadela e o ridículo toma conta da situação… e quanto a isto, um pequeno vislumbre na personalidade da banda (e em especial do gigante Peter Ratajczyk, mundialmente conhecido como Peter Steele) permite compreender a razão pela qual tantos mal-entendidos (quase sempre ridículos) surgiram (e ainda surgem) em relação à banda de Brooklyn.
A banda é conhecida por incluir nas letras (e não só) doses industriais de humor negro, referências em relação a algumas polémicas que os envolvem (geralmente de forma humorística mas bastante incisiva) e pela corrosibilidade de várias afirmações. Assim, a ironia e o sarcasmo são peças fundamentais no repertório da banda (sejam em letras ou noutro tipo de contactos com o público) e como tal a falta de cuidado (sobretudo quando a banda se tornou mais conhecida) na interpretação de alguns aspectos de Type O Negative (ou mesmo na própria atitude por detrás da banda) faz com que surjam muitas situações hilariantes dada a falta de “perspicácia” de alguns “intérpretes” do universo de TON… claro que isto é capitalizado pela banda o que geralmente só faz aumentar, ainda mais, o absurdo de tais interpretações.

Paradigmático de tudo o que disse anteriormente são os primeiros anos de Type O Negative e estende-se, no caso de Steele, até a Carnivore (banda de Thrash Metal/Crossover em que o vocalista/baixista esteve antes de Type O Negative). O uso de léxico associado a ideologias nazis na faixa Der Untermensch de Slow, Deep And Hard (ainda que de forma figurada uma vez que a letra denota uma visão geralmente partilhada pela direita conservadora americana no que concerne ao “Welfare State” e não se refere ao ideal racial), declarações incendiárias (ainda em ligação com a música mencionada), acusações de machismo (o facto do primeiro álbum retratar a traição de uma namorada de Peter Steele de forma bastante agressiva – ainda que humorística – levou a acusações de Misoginia) e diversos episódios que vão desde o surreal ao imensamente cómico. Um deles envolve o segundo álbum da banda, um falso álbum ao vivo em que a banda adicionou efeitos para dar a sensação de que tinha sido gravado ao vivo, sendo que existem alguns cânticos bastante desrespeitosos para com a banda como “You suck! You suck!” propositadamente adicionados… para efeitos burlescos, claro. Igualmente a capa segue a mesma linha de humor com a imagem extremamente próxima do ânus do vocalista/baixista, Peter Steele… dai o nome do álbum: The Origin Of The Feces (Not Live At Brighton Beach).

Claro que tudo isto foi prontamente aproveitado pela banda e em diversos campos. Em 1993 a banda lança o seminal Bloody Kisses que lança definitivamente TON para o mainstream. O sucesso de temas como Black No. 1 (Little Miss Scare-All) (satírica perfeita a vários estereótipos da cultura gótica) e Christian Woman (a presumível história de uma freira com um peculiar tipo de “desejos”) levou a banda à ribalta (até um pouco fora do mundo Metal) e deu à Roadrunner Records os seus primeiros discos de ouro e platina. Juntamente com estes temas estavam músicas com o tradicional humor da banda: Kill All The White People e We Hate Everyone eram caricaturas de todas as controvérsias, nomeadamente aquelas em que eram acusados de serem racistas.

Bloody Kisses, no entanto, foi importante – acima de qualquer outra coisa que possa surgir – por ter representado uma demarcação sonora evidente do passado da banda. O primeiro trabalho de estúdio de TON já tem alguns elementos diferentes do tradicional som de Carnivore (embora inicialmente fosse suposto ser um álbum de Carnivore) com mais inclusões nos terrenos do Doom (embora, de novo, Carnivore também tivesse passagens mais arrastadas), mas foi na proposta de 1993 que surgiu o som característico do Gothic Metal de Type O Negative, o que representou um avanço considerável no género. Tirando a mencionadas Kill All The White People e We Hate Everyone (que são tendencialmente mais viradas para o Thrash e Punk), o resto do álbum é muito mais semelhante à obra aqui em questão, October Rust.
Assim, além de uma confirmação inegável da direcção da banda em relação ao Gothic Metal, o terceiro álbum de originais (não contando a paródia de The Origin Of The Feces…) representa o paradigma do Gothic Metal moderno (apesar de ter muito mais para oferecer que apenas o tradicional do estilo) e mais um importante momento num género cuja fundação e delimitação estética muito deve aos desgraçados vindos de Brooklyn.

Review

Numa visão periférica, October Rust apresenta-se como um perfeito e modelar álbum dentro do que é o Gothic Metal. O referido género “sofre” uma influência enorme de TON, seja a nível directo (para diversas bandas que seguiram o paradigma criado), seja na criação de uma série de características que ou não existiam anteriormente (e aqui podemos definir Bloody Kisses como o início do som “típico” de Type O Negative, pelo menos no que ao Gothic Metal diz respeito) ou não tinham a mesma desenvoltura que a banda de Type O Negative lhes deu.
No entanto, o trabalho não se confina a ser um modelo de um género específico (apesar de representar esse papel na perfeição, como já foi dito). Isto acontece por dois motivos: em primeiro lugar devido às inúmeras influências externas que a banda ainda denota nalguns momentos e ainda que as mudanças sejam mínimas (muito menos bruscas que no álbum anterior) há incursões noutros subgéneros (quando o som se torna mais lento e pesado há uma clara vibração mais ligada ao Doom Metal e ao contrário quando existem momentos mais virados para o Gothic Rock nas músicas mais acessíveis como o clássico My Girlfriend’s Girlfriend); em segundo lugar, porque a própria identidade da banda é bastante única e transcende em vários planos (especialmente o lírico) o próprio género em que a banda mais se insere. Já para não falar na qualidade intrínseca do trabalho que o torna um álbum essencial de Goth Metal, não apenas mais um entre muitos ou numa situação em que é valorizado puramente pelo facto de ter surgido pelas mãos de uma banda pioneira no mencionado género.

Percebe-se logo aos primeiros segundos do álbum (literalmente) que a banda tem uma forma de estar (na música em geral) bastante própria e “característica”, nomeadamente no que ao humor diz respeito: a primeira faixa (Bad Ground) são quase quarenta segundos de ruído que dá a sensação do CD estar riscado o que fez com que algumas pessoas tentassem devolver o CD sem perceber que era suposto ser assim devido à partida da banda… É de pensar que a seguir a este momento a banda iria começar a levar as coisas mais “a sério”, no entanto essa assumpção logo se mostra errada já que na segunda faixa (que não tem título) temos a banda a gozar com a partida anterior, a apresentar os membros (Peter, Johnny, Kenny e Josh) e depois a agradecerem o facto de o ouvinte ter comprado o álbum. Na mesma linha, a última faixa (também sem título) tem o vocalista/baixista Peter Steele a desejar que a audição não tenha sido demasiado desapontante (“I hope it wasn’t too disappointing”)…
O resto do álbum é mais “limpo” destes momentos (entenda-se que isto não se refere ao humor negro que está, felizmente, sempre presente) se bem que ainda há referência a uma das paródias mais conhecidas da banda, “People’s Technocratic Republic Of Vinnland”, uma área imaginária algures entre o Canadá e os EUA (na verdade no nome vem de Vinland, nome dado pelos Vikings a uma zona inserida no que hoje é o Canadá) de onde a banda clama ser e cujo presidente é… Peter Steele. A faixa com o pomposo nome de The Glorious Liberation Of The People’s Technocratic Republic Of Vinnland By The Combined Forces Of The United Territories Of Europa é pouco mais de um minuto a retratar a “libertação” dessa república imaginária com sons bélicos em forma de marcha militar.

Contundo, não se pense que o tom geral do álbum é o divertimento leviano. Bem pelo contrário, o álbum tem vários momentos de negatividade que cobrem estados como a depressão, o luto ou a suave melancolia, sendo que este último aspecto que poderá muito bem ser o pano de fundo dominante do trabalho na sua tentativa de retratar os dias de prostração que invadem o Outono. Muita desta flutuação de sentimentos e estados de espírito é responsabilidade dos teclados quase omnipresentes de Josh Silver que são uma das principais linhas condutoras de todo o trabalho, com um som bastante distinto e equilibrado entre os vários ambientes criados pelo teclado. Silver varia entre uma série de técnicas que não só conferem ao álbum uma riqueza maior, como provam que se está na presença de um dos mais talentosos e criativos teclistas dentro do género… e não me refiro apenas ao Gothic Metal em particular.
Alguns dos sons mais reconhecíveis de October Rust são as introduções das mais conhecidas faixas do álbum (muito por causa do trabalho de sintetizadores que contém) como My Girlfriend’s Girlfriend ou a tremenda balada Love You To Death, ambas com um espantoso trabalho de teclados seja pelo som único que têm, seja pela predominância que têm na música. No caso de My Girlfriend’s Girlfriend (uma música sobre um afortunado triângulo amoroso em que o vocalista/baixista Peter Steele se vê envolvido), são os teclados muito ao estilo da segunda do Gothic Rock que dão à música um apelativo muito especial e tornam a música numa das mais conhecidas músicas de TON.
A par das introduções e dos solos, temos o lado mais atmosférico dos teclados, que geralmente coincide com as alturas em que a banda soa mais próxima do Doom (como acontece na épica Haunted) o que incute uma certa soturnidade às faixas. Além da referida Haunted (que é uma referência óbvia), a hilariante frase do refrão de Be My Druidess é acompanhada de alguns dos mais sinistros teclados de todo o álbum e o mesmo se pode dizer para a penosamente realista Red Water (Christmas Mourning).

Além destes apontamentos, é de referir que muita da riqueza do álbum a longo prazo se deve à mestria de Silver mesmo nos momentos em que os teclados não são predominantes ou nem sequer aparecem em pano de fundo. Existem subtis incursões dos teclados em momentos chave do álbum que enfatizam determinado som (muitas vezes até outros elementos como a guitarra ou a voz de Steele) e que são instrumentais para o sentimento que a banda pretende recriar. Depois de tudo isto, Josh Silver também foi o responsável pela programação da bateria (bem como co-produziu o álbum com Peter Steele) que, ao contrário do que os créditos dizem atribuindo-a ao baterista Johnny Kelly, foram inteiramente programados em estúdio. Em relação a este aspecto não há muito a dizer, não só porque quase não se nota que a bateria é programada (que é o que interessa, já que ninguém estaria à espera de brilhantismo com programação da bateria) mas também porque é um elemento que não grande importância no álbum (provavelmente de forma propositada devido ao que foi referido).

Ainda no campo da produção é de destacar a forma como todo o álbum está bem construído no que diz respeito ao balanceamento do binómio peso/melodia. Apesar de os teclados serem de uma clara importância (e a forma como são usados dão um aspecto mais melodioso e calmo a todo o álbum), o peso das guitarras e do baixo é sempre considerável. Além de tudo soar de forma cristalina (outra coisa não seria de esperar e exigir), tudo tem o seu espaço e tempo para surgir dentro do som, o que é muito positivo dado que sublinha uma das principais qualidades da banda, isto é, a sua qualidade na composição das músicas, nomeadamente nas mais longas como a minha preferida Die With Me onde há uma exaustiva exposição de tudo o que a banda tem de melhor para oferecer.
A produção também mantém o som característico de TON – e que de alguma forma foi cravado definitivamente em Bloody Kisses – embora se notem algumas diferenças em relação ao anterior trabalho. Este aspecto tem a sua materialização sobretudo na forma como a guitarra actua. Kenny continua a desempenhar um papel fundamental no álbum, mas o som da guitarra é mais límpido e tem algumas variações que não eram tão evidentes (ou não existiam de todo) no álbum que precedeu October Rust.
A distorção de guitarra típica de Type O Negative (e que influenciou incontáveis bandas…) está presente mas acaba por ser ligeiramente mais suave. Isto deve-se principalmente ao da distorção ser mais ouvida nos momentos mais arrastados e lentos, o que não acontece assim tantas vezes neste álbum. No geral, as músicas também não são muito pesadas (embora esta constatação só sirva em análise com os álbuns passados da banda, uma vez que é um álbum bastante pesado para o que é normal dentro do Gothic Metal) e daí esta pequena atenuante no som da guitarra. No entanto, isto não quer dizer que Kenny não esteja a altura dos acontecimentos. Algo que é curioso notar é o dinamismo da guitarra que assenta que nem uma luva no som melodicamente poderoso da banda: a guitarra pode, por um lado soar suave e gentil em faixas como Love You To Death ou Die With Me e por outro lado soar obscura e pesada em momentos como Red Water (Christmas Mourning) ou Wolf Moon [Including Zoanthropic Paranoia]. Da mesma forma, músicas como My Girlfriend’s Girlfriend ou Cinnamon Girl (um original de Neil Young sublimemente adoptado ao estilo de Type O Negative), não seriam as mesmas sem os contagiantes riffs saídos dos dedos de Kenny.

O outro representante do campo das cordas é nada mais nada menos que Peter Steele. O membro mais reconhecido da banda tem, naturalmente, um enorme destaque em October Rust. Falando primeiro no seu desempenho como baixista, o que se encontra no álbum é uma tremenda performance de Steele, que ajuda em muito a definir o som profundo e grandioso do álbum. Steele toca com bastante força e energia o que lhe dá um estilo único de execução, seja em que prima musical esteja inserido (o seu trabalho com Carnivore é exemplo desta multiplicidade). Adicionando a isto o facto do baixo ser um elemento com bastante importância no som de TON (e na própria caracterização do mesmo), dá para perceber que Steele é bastante mais do que a face de Type O Negative. É igualmente notável a forma como Steele vai variando o trabalho e imprimindo diferentes tons e texturas nas músicas virtude do seu papel enquanto baixista. Se por um lado temos belas melodias como na balada Green Man, por outro lado temos um trabalho de outra ordem completamente diferente em Burnt Flowers Fallen em que na maior parte do tempo o som é mais acelerado.
Mais do que o destaque nalgum momento em particular (e aqui nem temos um momento como Black Nº1…), o distinto som do baixo de Peter Steele é um bom resumo do que October Rust representa no cômputo geral: refrescante (muito raramente vemos um baixo com esta importância dentro do género… e aqui refiro-me ao género alargado de TON) e imponente nos seus melhores momentos.

Falando em imponência, poucos serão os adjectivos que descrevam melhor que imponente a outra parte da contribuição (mais reconhecível, claro) de Steele no álbum. O álbum é invariavelmente marcado pelos vocais graves (muito graves) e poderosos do gigante vocalista de TON. Porventura o som mais distinto do trabalho (sem desprimor ou relegação para um plano de irrelevância de tudo o resto) é a voz de Steele e isto muito se deve à forma como a voz se consegue destacar de tudo o resto devido ao timbre único do vocalista, sem nunca destruir a coesão das músicas. Isto é particularmente evidente em momentos menos pesados em que a voz de Steele ainda se consegue encaixar de forma perfeita (exemplo paradigmático disto é a já referenciada Cinnamon Girl). No entanto, não se restringe ao descrito até agora: a performance teatral de Steele vai variando entre os graves pronunciados e autênticos uivos que acentuam o lado mais negro de algumas das músicas (e que acaba por ser o sentimento mais predominante do álbum). A excelente balada Love You To Death tem simultaneamente alguns dos graves mais profundos do álbum e alguns dos melhores momentos do timbre mais “vampírico” (que a pronúncia característica do vocalista também acentua) de Steele. Momentos memoráveis como os que surgem no meio de Die With Me não parecem atingíveis (acima de tudo pela unicidade do timbre) por outro vocalista que não Peter Steele.

Tão importante quanto a qualidade vocal de Steele é a qualidade lírica (departamento também a cargo do vocalista) e neste aspecto poderemos dizer que as duas estão a par em termos qualitativos. As letras variam entre temas tão distintos como o amor, melancolia e… erotismo florestal ou o trabalho de um operador num parque público de Nova Iorque. Claro que estes dois últimos temas são extremamente literais mas acabam por ser a prova de como Steele consegue atingir simbiose perfeita entre assuntos mais solenes e doses de humor (negro, preferencialmente) consideráveis. Momentos como o refrão de Be My Druidess mostram bem o contraste entre a solenidade da música (incluindo a voz) e as letras. Numa altura bastante Doom e tenebrosa eis que surge:

I’ll do anything
To make you cum…

No entanto, aliado a este momento, nesta mesma música, temos um dos elementos que mais vão surgindo nas letras: o erotismo e a devoção à figura feminina. Um contraste acentuado se olharmos para o primeiro trabalho da banda, mas que ganhou grande relevância em October Rust. Além da mencionada música, baladas como (não tanto por o serem, mas sobretudo pelas letras) como Love You To Death ou Die With Me mostram igualmente esta nova abordagem. A figura feminina é, aliás, a grande fonte de inspiração de Steele para a componente lírica do trabalho visto que, das mais variadas formas (mais sérias ou mais humorísticas), a temática vai sempre surgindo e devido às desventuras de Steele com antigas paixões (aliás, o álbum é dedicado à ex-namorada Elizabeth que também surge no vídeo de Love You To Death) se torna no elemento que mais provoca e inspira o sentimento melancólico que percorre todo o álbum.
É verdade que as letras centram-se fundamentalmente na temática já enunciada, mas temos ainda músicas muito mais fúnebres como Red Water (Christmas Mourning) que descreve o sentimento de perder um ente querido. Steele aborda a questão de forma quase “infantil”, mas de forma brutalmente real e quotidiana:

My tables been set for but seven,
just last year I dined with eleven.

Da mesma forma, que quase surge inconscientemente e com uma leve ponta de humor, surge a letra existencialista de Green Man (o nome é referência directa à cor dos uniformes usados por Peter Steele quando trabalhava nos parques públicos de Nova Iorque), que acaba por resumir um pouco todo o conjunto de emoções melancólicas transmitidas pela música e letras do álbum, sendo simultaneamente a melhor letra do álbum:

Sol in prime sweet summertime,
Cast shadows of doubt on my face.

A midday sun, its caustic hues,
Refracting within the still lake.

Sendo um álbum com uma coesão e compatibilidade (características que não equivalem a repetição ou aborrecimento) e sendo o sentimento geral maior do que a soma das (excelentes) partes que o constituem, torna-se complicado destacar algum momento. Porventura músicas como Love You To Death, Green Man e Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia), pela forma como estão notavelmente compostas, surgem como alguns dos temas mais representativos da majestosidade de October Rust, mas são insuficientes para perceber a qualidade do álbum como um todo. Mesmo uma referência à arrepiante Die With Me (que pessoalmente considero o melhor momento do álbum) seria injusta se não enquadrada com tudo o que o trabalho representa e atinge…

Conclusão

Em October Rust as influências externas foram bastante mais deixadas de lado (pelo menos directamente) e caminhou-se numa direcção mais homogénea. Não querendo com isto dizer que a diversidade vincada que pautava os trabalhos anteriores era um factor negativo (muito pelo contrário), a direcção mais clara do álbum beneficia o resultado final sem o tornar excessivamente formulado ou previsível.

October Rust surge, ironicamente, como um momento de definição para Type O Negative. Ironicamente porque sendo uma obra de retracto emocional de um conceito específico, abrange sensibilidades que não costumam estar associadas a momentos de segurança (mesmo para a definição do som de uma banda). É talvez este sentimento de vulnerabilidade que percorre a obra em tons de melancolia que a tornam – juntamente com a enorme qualidade de execução – tão apelativa e essencial (um clássico pode-se até dizer, alargando o sentido do termo) dentro do estilo em que se insere.

PhiLiz
Escrito originalmente em 2009.02.05

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Samael – Ceremony Of Opposites (1994)

Publicado por PhiLiz em 09-12-2008

Artista: Samael
Álbum: Ceremony Of Opposites
Ano: 1994
Género: Black Metal
País: Suiça
Editora: Century Media

Tracklist:
01 – Black Trip
02 – Celebration Of The Fourth
03 – Son Of Earth
04 – ‘Till We Meet Again
05 – Mask Of The Red Death
06 – Baphomet’s Throne
07 – Flagellation
08 – Crown
09 – To Our Martyrs
10 – Ceremony Of Opposites

Membros:
Alexandre “Xytras” Locher – Bateria
Christophe “Masmiseim” Mermod – Baixo
Michael “Vorphalack” Locher – Guitarra, Voz
Rodolphe H. – Teclado

Introdução

Se há palavra que pode definir genérica mas precisamente a carreira de Samael (formados em 1987), essa palavra é mutação. Não fazendo sequer uma incursão ao que foi lançado pela banda depois de Ceremony Of Opposites (uma vez que ai a mudança é drástica e facilmente verificável) e sendo a análise apenas em relação aos primeiros tempos do conjunto suíço, existe uma clara intenção de experimentar (esta característica manteve-se e acentuou-se bastante nos anos que se seguiram a 1994) novas coisas e expandir o universo musical do grupo com elementos anteriormente não incorporados.

Para se perceber esta dinâmica “mutante” é preciso olhar para os dois álbuns anteriores da banda. Nada mais nada menos que Worship Him e Blood Ritual de 1991 e 1992, respectivamente. Não estamos perante dois trabalhos vulgares. Numa altura em que uma verdadeira revolução se dava a uns bons milhares de quilómetros do território suíço (na Noruega, claro), estes dois trabalhos tornaram-se verdadeiros clássicos do que mais tarde se viria a chamar Segunda Vaga de Black Metal. Expandindo o que os conterrâneos Hellhammer e Celtic Frost (entre outros, claro) haviam feito nos anos 80, os dois primeiros álbuns de Samael tornaram-se verdadeiros clássicos do Black Metal moderno. O mais surpreendente (uma vez que são álbuns habitualmente prezados de forma mais ou menos igualitária) é que são dois trabalhos que em si já encerram algumas diferenças: Worship Him tem bastantes variações entre os tempos rápidos (seja nos riffs, seja na bateria) e algumas passagens mais atmosféricas enquanto que Blood Ritual acentua a toada lenta sem nunca perder o som poderoso e ritualístico da banda. Atendendo a este historial é possível antever mais uma mudança em Samael ainda que sempre dentro do prisma do Black Metal (isto falando apenas o que foi feito imediatamente a seguir com Ceremony Of Opposites, entenda-se).

Na verdade, Ceremony Of Opposites é porventura o último trabalho da banda associado ao que se pode de alguma forma chamar Black Metal “tradicional”. Seguindo as pisadas de constante mudança sonora de outra (já mencionada) banda suíça, os seminais Celtic Frost (embora por caminhos totalmente diferentes dos seguidos pela banda de Tom G. Warrior), os Samael enveredaram, após Ceremony Of Opposites, por caminhos mais ligados ao som Industrial (direcção que de alguma forma pode ser vislumbrada neste trabalho de 1994) e maximizaram ainda mais o carácter experimental e ecléctico da banda.
Este facto (ser o último trabalho mais ligado ao BM de Samael) não é por si só razão suficiente para uma atenção especial ao álbum (essas serão descritas na análise ao álbum) mas do ponto de vista do exame evolutivo de uma das bandas pioneiras da Segunda Vaga de Black Metal (ainda antes de alguns dos grandes lançamentos da cena norueguesa) torna-se essencial compreender este trabalho da banda em toda a sua plenitude.

Review

Aquando de um contacto inicial com Ceremony Of Opposites há a constatação de duas ideias antagónicas: por um lado é indubitavelmente um álbum de Black Metal, mas por outro lado estamos perante uma execução dentro do estilo “sui generis” e que foge a muito dos “padrões instituídos” para se praticar bom BM. Um “je ne sais quoi” de diferente em relação ao que costuma ser o som mais comum dentro do género.

Penso que isto pode ser explicado por diversos factores mas em termos gerais percebe-se uma aproximação a alguns géneros fora do Black Metal como seja o Industrial. Obviamente que isto não quer dizer que estejamos perante um trabalho de Industrial Black, longe disso. Fazer tal observação seria incorrer num erro de observação (ou de audição se assim for preferido) por exagero. O que se nota é a utilização subtil de alguns elementos que lhe dão uma roupagem diferente dentro do BM mas que não o afastam da linha condutora do género. Em momento algum se ouve algo que não seja BM em Ceremony Of Opposites.
Refiro-me sobretudo à forma como a bateria e os teclados (que muitas vezes utilizam samples) estão misturados e produzidos ou a forma como um dos elementos mais fortes do álbum (os riffs e todo o trabalho de guitarra em geral) é executado, não recorrendo ao habitual tremolo picking mas sim a riffs arrastados e não raras vezes lentos. Por último, em relação a este aspecto do trabalho isto há que destacar também a produção que confere um efeito maquinal e “industrializado” às músicas.
Para sintetizar o porquê deste efeito de estranheza pode-se dizer que a banda arranjou uma maneira interessante e eficaz de integrar diferentes influências sem no entanto por em causa a essência que, por exemplo, Worship Him e Blood Ritual encerram.

Referi a bateria como um dos motores da forma peculiar como o álbum se movimenta dentro do BM mas é muito mais que isso. A forma infernal como Xytras (enorme baterista) se apresenta é um dos grandes destaques do álbum. O poder que emana da percussão do álbum é enorme e por si só digno de registo mas o mais fantástico é a maneira como a bateria soa grandiosa e energética mesmo sendo maioritariamente executada em tempos médios.
Num dos clássicos saídos deste álbum – Baphomet’s Throne – a intensidade e energia que são imensas mas o tempo nunca acelera muito. No entanto, a bateria (juntamente com os teclados) dá uma grandiosidade e acutilância que fazem a faixa sobressair.
Além de eficaz e poderoso, o trabalho de Xytras caracteriza-se pela sua complexidade e variação. Os tempos são geralmente lentos (sobretudo se comparados com algumas propostas dentro do Black Metal) mas existem momentos mais rápidos como nalgumas secções de Flagellation e no geral o trabalho é sempre bastante variado. Desde os ocasionais (ainda que raros) blast beats, até aos tempos mais lentos (que acompanham os riffs igualmente menos acelerados como superiormente demonstrado em ‘Till We Meet Again) passando pelas introduções em jeito de marcha imperial (como na faixa-título), o trabalho é simplesmente perfeito para criar uma atmosfera quase épica mas acima de tudo muito poderosa e… cerimonial.

A complementar na perfeição o que é criado pela bateria estão os teclados. Neste departamento há uma combinação inteligente entre o uso de teclados sombrios e as samples que durante todo o trabalho se vão ouvindo com alguma frequência. Seja a enfatizar a vibração misteriosa criada pela execução relativamente lenta dos outros instrumentos ou simplesmente a adicionar novas atmosferas aos temas, os teclados têm um papel bastante evidente e importante na condução das músicas.
Não são usados com enorme frequência (até porque um exagero ou um mau uso deste elemento pode tornar-se fatal para um álbum de BM como já foi muitas vezes provado) mas aparecem quase sempre em cada faixa. A incursão já referida por caminhos mais virados para o Industrial tem a sua consubstanciação nos teclados e sobretudo no uso de samples. Faixas como Flagellation perderiam todo o seu ambiente mecanizado se os teclados estivessem ausentes ou porventura usados doutra maneira. Da mesma forma, o uso de samples insere subtilmente (aliás, os teclados resultam bem precisamente porque são usados cirurgicamente) outras texturas a momentos mais atmosféricos como é o caso da última faixa Ceremony Of Opposites.

Um ponto comum a todo o álbum, mas que em relação ao uso dos teclados se torna ainda mais evidente, é a forma como a composição está elaborada e cuidada. Nada parece ser prolongado por demasiado tempo ou acabar cedo demais. Veja-se, para exemplificar este aspecto, a quinta faixa Mask Of The Red Death onde o acompanhamento dos teclados aos riffs é evidente e como inteligentemente toma conta da música antes de se tornar, de novo, numa parte que enfatiza o trabalho de guitarra e baixo… tudo pensado e executado ao pormenor para não parecer demasiado forçado ou enfadonho.

Como não poderia deixar de ser esta última característica que descrevi estende-se ao que é provavelmente o elemento mais importante na condução instrumental do álbum: a guitarra de Vorphalack. Os riffs de guitarra que dominam o álbum são variados, apresentam-se sempre bastante originais e… têm um groove fenomenal. Apesar de não ser um termo conotado com o Black Metal (de todo) não há outra forma de denominar aquilo que invade todo o álbum e compreende-se precisamente porque este não é um Worship Him. Ouça-se o início de Black Trip e percebe-se que há um groove muito próprio em todo o trabalho de guitarra. Escusado será dizer que não é um som comparável ao que geralmente mais está associado com o termo groove…
Na realidade, o que temos neste campo é um som muito próprio criado pelas guitarras brutalmente distorcidas que inundam o álbum. Vamos desde as progressões que criam uma atmosfera densa e negra até aos momentos mais melódicos nalguns refrões (a faixa Son Of Earth é paradigmática deste aspecto) ou simplesmente aos riffs destruidores que acompanham a toada mais maquinal da secção rítmica.
Embora os riffs sejam claramente compostos no horizonte do Black Metal, é possível reconhecer algumas influências de outras formas extremas de Metal como o Death Metal nomeadamente quando se ouvem alguns momentos mais melódicos. Não é algo que seja muito evidente porque a produção, distorção e colocação dos riffs é muito ligada ao BM mas o tal groove que se ouve é muitas vezes devido a estes sons mais próximos do DM.
Para completar todo este panorama há que salientar um dos aspectos que torna este trabalho tão fluído e bem construído: o quão “catchy” é todo o trabalho de guitarra. Para além do som de guitarra ser facilmente relembrado, muitos dos riffs são memoráveis e resultam na perfeição. Assim se compreende que tenham saído deste álbum muitos clássicos da banda como Baphomet’s Throne, Black Trip ou Son Of Earth.

A acompanhar a guitarra temos o baixo que apresenta muitas características que se podem verificar na guitarra. A distorção confere à execução de Masmiseim uma enorme relevância, seja a acompanhar as guitarras nos momentos mais pesados, seja a preencher o som de forma ainda mais intensa.
No entanto, o baixo (sempre perfeitamente audível) faz mais do que simplesmente “completar” o que vai sendo feito pelo resto dos instrumentos como se pode notar em Mask Of The Red Death. Embora pontuais existem momentos em que Masmiseim se destaca mais e torna o ataque sonoro ainda mais acutilante e variado.

Para agregar toda esta potência temos, claro, a voz de Vorphalack. Num gutural poderoso e que dá o toque final a toda a energia do instrumental, Vorphalack espalha no álbum uma agressão genuína e acaba por se tornar num dos elementos que mais se destaca.
Sempre num registo muito semelhante, a voz de Vorphalack é profunda mas mantém a rispidez que caracteriza os vocais do Black Metal. A forma como a voz consegue ser preponderante face a um registo instrumental tão poderoso (que requer uma voz igualmente poderosa para resultar bem) é um mérito da produção mas também da forma como Vorphalack aborda a questão da colocação de voz. Mais do que uma vocalização musical temos um registo quase recitado em que o vocalista vai declamando as (excelentes) letras como se de ensinamentos se tratassem. Isto resulta muito bem: quer do ponto de vista musical pela forma como se conjuga com tudo resto, quer pela forma como se integra com a idiossincrasia das próprias letras. Cria-se assim uma atmosfera que está em consonância com o nome do álbum: uma verdadeira cerimónia.

Em relação à parte lírica esta é na maior parte das vezes excelente. Digo na maior parte das vezes e não sempre porque existem (muito poucos) momentos que caem demasiado nos clichés ou não resultam porque a linguagem agressiva se torna demasiado absurda. Son Of Earth ou To Our Martyrs sofrem deste mal, não obstante a primeira ser uma das melhores faixas do álbum. Contudo, estes pequenos “acidentes” não devem ofuscar todo o restante conteúdo lírico que é de elevada qualidade. As letras que lidam com os temas religiosos do ponto de vista filosófico fazem-no de uma perspectiva mais ateísta que nos álbuns anteriores (Worship Him é auto-esclarecedor) embora ainda se verifiquem referências mais viradas para o Satanismo (apenas na sua vertente mais teísta, ressalve-se). Algumas temáticas como o sofrimento pessoal (aqui visto de uma forma guerreira e não como forma de auto-comiseração) também são abordadas de forma inteligente como se pode verificar em Crown: “Into pain, I exist/And if my brain is numbed/The thorn in my flesh/Can overcome apathy“.

Todos os elementos descritos anteriormente acabam por estar em cada uma das faixas. No entanto, é raro as “peças” estarem dispostas da mesma maneira o que providencia uma dinâmica que permite ao álbum uma longevidade maior sem se tornar demasiado formatado.
A produção também ajuda na forma como o álbum não se esgota: sendo (a produção) bastante polida ajuda a ir descobrindo novos detalhes em cada faixa e torna o álbum “agradável” (com as ressalvas em relação ao gosto de cada um pela banda e género em questão) de ouvir ainda para mais quando este tem verdadeiros hinos de BM como: Black Trip, Baphomet’s Throne, ‘Till We Meet Again (melhor faixa do álbum) ou a faixa-título cujos teclados finais encerram na perfeição esta “cerimónia”.

Conclusão

Os Samael nunca foram uma banda convencional. Mesmo nos tempos de Worship Him ou Blood Ritual os ritmos eram mais contidos e dava-se mais ênfase à atmosfera e negritude imprimidas nas faixas. Com Ceremony Of Opposites os suíços dão um passo em frente na exploração de novas texturas embora nesta proposta de 1994 ainda tenham muito do que os fez inicialmente destacar-se.

Ceremony Of Opposites é um dos melhores trabalhos de BM saídos de 1994 (o melhor será provavelmente um tal de De Mysteriis Dom Sathanas), mas acima de tudo uma forte proposta de BM (a última completamente associada ao género por parte da banda) cheia de inteligência e intencionalidade que “usa” elementos estranhos ao Black Metal para engrandecer o género.

PhiLiz
Escrito originalmente em 2008.12.09

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